AP Photo/Ferdinand Ostrop
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Conservadorismo alemão ensaia retorno

Alexander Mitsch, um dos fundadores do partido Werteunion, afirma que a cultura da Europa Ocidental tem de ser defendida.

Anna Sauerbrey / DER TAGESSPIECEL, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2018 | 05h00

Após anos do centrismo amorfo de Angela Merkel e da ascensão da extrema direita, estaria o conservadorismo alemão voltando? Em abril, o Werteunion, ou União de Valores, reuniu-se na cidade de Schwetzingen para adotar o que seus membros chamaram de “manifesto conservador”. Missão: tomar de volta o partido da facção de Merkel e redirecioná-lo para suas tradicionais raízes conservadoras. 

O Werteunion foi fundado em março de 2017, mas foi a primeira vez que a maioria dos alemães ouviu falar dele. Se vai ganhar força ou se seus princípios vão mudar à medida que cresça, ainda é incerto. Mas não há dúvida de que o Werteunion preenche um vazio no cenário político – e responde aos anseios direitistas de muitos eleitores. É hora de se perguntar: o Werteunion vai tornar obsoleta a extrema direita ressurgente? Ou vai legitimá-la?

Alexander Mitsch, um dos fundadores do Werteunion, é um típico produto do novo conservadorismo alemão. Ele disse que se juntou à democracia cristã no início dos anos 80. Engajou-se em política local, mas saiu quando sua carreira no setor privado começou a decolar. 

Em 2015, quando as imagens de dezenas de milhares de imigrantes e refugiados cruzando a fronteira alemã inundaram a televisão, Mitsch disse ter sentido que o Estado estava entrando em falência e ele precisava agir. Como muitos alemães, e não apenas de direita, Mitsch diz que está preocupado com que o Islã político possa mudar o país.

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Ele afirma que a cultura da Europa Ocidental tem de ser defendida. Exige a interrupção total da imigração até que a Alemanha consiga processar a pilha de pedidos de asilo em aberto. E está convencido de que a União Democrata-Cristã (CDU) não reencontrará suas raízes conservadoras enquanto for dirigida por Angela Merkel. 

O Werteunion tem mais de mil membros. Embora isso seja apenas uma fração dos 420 mil da CDU, há, segundo Mitsch, uma razão pela qual um encontro numa pequena cidade do oeste da Alemanha ganhou manchetes nacionais: a política alemã está mudando rapidamente e há no ar uma sensação de que as coisas estão à espera de alguém que se aposse delas.

O Werteunion é também o indício de uma tendência maior. Durante uma década, o conservadorismo pareceu estar perdendo espaço em uma sociedade empenhada em ser cada vez mais progressista. Mas, nos últimos meses, intelectuais e políticos conservadores passaram a falar mais alto. 

Há algumas semanas, Uwe Tellkamp, um dos mais conhecidos romancistas alemães, afirmou que “95% dos imigrantes” não são refugiados de fato, mas imigrantes em busca de um melhor padrão de vida. Ele está errado – em 2017, 43% dos imigrantes que pediam asilo ganharam status humanitário – e foi duramente criticado por usar dados falsos num debate tão apaixonado. 

Tradicionalmente, a âncora do conservadorismo no Parlamento alemão tem sido a União Social-Cristã (CSU), partido bávaro irmão da CDU de Merkel. Na corrida final para as eleições estaduais deste ano na Baviera, a CSU vem endurecendo posições sobre imigração e integração, explicitamente para bloquear o avanço da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). “Se retomarmos o discurso e a ação abandonados, conseguiremos tornar a AfD obsoleta”, disse Alexander Dobrindt, líder da bancada da CSU no Parlamento.

Em janeiro, Dobrindt publicou o próprio manifesto conservador no jornal Die Welt. A maioria dos alemães, disse ele, pensa e se sente de modo “bürgerlich” – termo geralmente traduzido por “cívico”, mas que em alemão engloba também o sentido de tradição, ordem e normalidade. Segundo Dobrindt, a maioria “cívica” está sub-representada no debate público, que, segundo ele, é dominado por líderes esquerdistas. É hora, escreveu ele, de uma “revolução conservadora”.

Mas qual seria o ganho se a AfD se desintegrasse e os populistas continuassem a se infiltrar na política dominante? Por um lado, os “neoconservadores” compartilham de algumas posições da AfD – redução da imigração, repatriação de imigrantes, políticas de segurança mais duras. Essas não são, em si, novas políticas conservadoras, mas parte do conservadorismo geral. No entanto, com a direita tradicional adotando-as tão ostensivamente para combater a ressurgente extrema direita, não há dúvidas de que a própria extrema direita esteja ganhando terreno. Há um novo radicalismo no neoconservadorismo. 

Como a AfD, os novos conservadores veem a imigração não apenas como um problema prático que cria dificuldades para a assistência social, a integração, a moradia e a segurança. Muitos também a veem como uma ameaça existencial à identidade nacional alemã e, mais amplamente, ao próprio Ocidente.

E “ameaças existenciais” costumam legitimar medidas extraordinárias. 

Neoconservadores gostam de se imaginar como rebeldes contra o status quo de Merkel. Com frequência se definem como “maioria silenciosa” – grande em número, mas sub-representada na mídia e na política. É um velho chavão usado não apenas na Alemanha, mas que reforça a ideia de que há algo errado com o sistema democrático local. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA

 

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