The New York Times
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Considerado peixe pequeno, ex-espião envenenado tinha em Putin um grande inimigo

Depois de obter perdão por traição ao trabalhar como agente duplo para os britânicos, Serguei Skripal quebrou a principal regra do mundo dos espiões russos: não agir contra a Rússia

Michael Schwirtz e Ellen Barry / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2018 | 18h37

Desde 2010, quando Serguei Skripal e outros três espiões condenados foram libertados após uma negociação com o Ocidente, Vladimir Putin vem observando atentamente de longe com uma fúria crescente. Questionado sobre a libertação dos espiões, Putin insinuou publicamente sobre a morte deles. 

O colega de Skripal, que trabalhou com ele no escritório regional do governo soviético em Moscou, considera a traição de Skripal, no mínimo, compreensível. 

"Era um período de construir a capital (Moscou)", ele disse. "Isso estava afetando todo mundo no governo, incluindo estruturas como o GRU (a inteligência militar russa). Havia também a necessidade de se fazer dinheiro. A hora chegou. O juramento que ele havia feito à União Soviética, me parece, não precisava mais ser respeitada." 

Vladimir Putin, outro oficial de inteligência em meio de carreira, estava passando pela mesma perda de status. "Eu tinha o sentimento de que o país não existia mais", ele diria um tempo depois. 

Serguei Roldugin, amigo de Skripal, disse nunca ter visto Putin tão emotivo quando falou sobre os informantes da Alemanha Oriental, cujas identidades haviam sido reveladas. "Ele disse que aquilo era igual a traição", afirmou Roldugin ao biógrafo de Putin, Steven Lee Myers. "Ele estava muito chateado, extremamente." 

O tom era esse na primeira eleição de Putin para presidente em 2000 - um dia antes, precisamente. Nessa data, o Serviço de Segurança Federal, que havia sido comandado por Putin, deixou vazar a identidade de um oficial do serviço secreto britânico MI6 que era um recrutador prodígio de espiões russos. Foi um vazamento cuidadoso, meticuloso, com o objetivo de atacar a carreira de um homem, um ataque pessoal deliberado: o serviço de espionagem também revelou o nome de sua mulher e do fato de que ele tinha duas filhas. 

Esse homem, mais tarde foi revelado, foi quem recrutou Skripal. 

Após a condenação de Skripal em 2006, ele era "um intocável", disse Ivanov, um ex-colega. A família de Skripal, de repente sozinha, manteve sua vergonha privada. Ivan Fedoseyev, de 76 anos, o vizinho de porta da família, notou que o sr. Skripal havia sumido e ele presumiu que havia deixado sua mulher, Lyudmila, por outra. "Era constrangedor perguntar sobre isso", disse. 

Lyudmila falou amargamente sobre amigos que testemunharam contra seu marido, disse Viktoria Skripal, sobrinha do ex-espião. Ela havia reclamado à sobrinha que muitos dos colegas do GRU decidiram viver no Ocidente após a queda da União Soviética. "Por que ninguém os chamava de traidores? ela dizia", segundo Viktoria. 

Para Putin, a Rússia era só flores. Ele havia levado os magnatas do mundo dos negócios para seu lado, e seus próprios aliados, a maioria ex-membros da inteligência de São Petersburgo, assumiram a dianteira das principais indústrias. Os amigos de Putin assumiram as posições dos mais ricos do mundo, comprando iates e mansões. 

Mas Lyudmila Skripal tinha de mendigar. Logo, ela já não conseguia mais mandar o dinheiro mensal que seu marido precisava na prisão, para comida e higiene pessoal, então ela pediu para a mãe dele colaborar com sua pensão, algo em torno de US$ 500 por mês. Em uma longa batalha legal de apelações, ela recorreu a uma lista de oficiais militares russos, pessoalmente ao ministro da Defesa, finalmente, para restaurar a pensão de seu marido. 

"Eu sou forçada a apelar a você por ajuda dado à situação difícil que eu, uma pensionista, me encontro atualmente", ela escreveu. Por seus esforços, por mais de dois anos, ela foi premiada com 33.148 rublos, que na época valiam cerca de US$ 1 mil. 

Ela parou de se cuidar. O apartamento da família estava desmoronando, as paredes estavam caindo e o piso de linóleo manchado, disse Lilia Borisovna, que comprou o apartamento mais tarde.

Sua saúde também estava em decadência. Ela começou a apresentar sintomas de um câncer de útero, que já havia se convertido em metástase, não tratada. Estava claro que algo muito sério estava acontecendo, disse Viktoria Skripal, que a implorou para procurar ajuda médica imediatamente. Mas ela se recusava a ver um médico, disse, até que um deles foi vê-la. 

Skripal estava tentando sair da prisão mais cedo e submeteu uma apelação detalhada a uma corte militar. Em seu julgamento, ele confessou ter passado informações sigilosas para um oficial da inteligência britânica. Mas em sua apelação, de acordo com papéis do processo, ele disse ter confundido o oficial com um homem de negócios que simplesmente fez a ele uma oferta para que ele fosse trabalhar para sua firma após sua aposentadoria. 

A corte de apelações não aceitou a história. 

Enquanto Skripal esperava, seu filho, Sasha, caia em um buraco profundo. Muito de sua vida havia sido construída em torno dos contatos de seu pai no GRU: sua mulher, Natalya, era filha de outro coronel que morava no mesmo condomínio. Seu trabalho tinha saído dessa rede de contatos. Após a traição de seu pai ter se tornado pública, foi o começo do fim para ele. 

Sasha deixou seu emprego abruptamente, disse Ivanov. Seu sogro afirmou ao Moskovsky Komsomolets, um jornal russo, que Sasha estava bebendo demais e recomendou à filha para que o deixasse. 

Em um dia quente de julho de 2010, guardas do Colônia Correcional Nº 5 na República Russa de Mordovia foram até a cela de Skripal e disseram a ele para que juntasse suas coisas. Ele foi levado para a prisão Lefortovo, em Moscou, onde se encontrou rapidamente com sua família antes de ser colocado em um pequeno avião Yak pertencente ao Ministério de Situações Emergenciais da Rússia. Com ele, havia outros três ex-prisioneiros. Todos ficaram em silêncio nas três horas de voo até Viena. 

O clima era muito diferente a bordo do Vision Airlines 737 fretado pelo governo americano para transportar os quatro homens. Após decolarem, agentes federais abriram garrafas de Champagne e serviram whisky para brindar a liberdade dos homens, de acordo com uma pessoa presente no voo. Um ex-major da KGB deu um grande discurso, eles estavam livres. 

Ele sabia os nomes dos traidores que traíram seus camaradas, perguntou um jornalista a Putin após a troca. "Claro que sim", ele respondeu. Irá puni-los? Putin então respondeu misteriosamente. "Isso não pode ser decidido em uma entrevista coletiva", disse ele. "Eles vivem segundo suas próprias regras, e essas regras são bem conhecidas por todos nos serviços de inteligência." 

Putin estava ficando impaciente com a cooperação de Medvedev com Barack Obama. 

Em 2011, ele se enfureceu com a campanha de bombardeio francesa na Líbia, culpando Medvedev por ceder à pressão dos EUA e falhar em usar o veto da Rússia para bloquear a resolução que autorizou o ataque ao país árabe no Conselho de Segurança da ONU. 

Sua crítica furiosa a essa campanha, que ele comparou a uma "cruzada medieval", serviu de presságio para o que aconteceria em seguida: ele tomou de volta o poder em 2012 e começou a desfazer todo o trabalho de reaproximação de Medvedev. 

Mas Skripal e os outros traidores, entregues às mãos das agências de inteligência ocidentais, já tinham se espalhado. 

Skripal estava em Salisbury, tentando se adaptar. Ele estava receoso de abordar seu passado, pelo menos no começo. Em uma escola de inglês em Wiltshire College, ele se apresentou como chefe de uma companhia de construção, que recentemente havia chegado da Espanha. Ivan Bombarov, um taxista búlgaro que tinha amigos na mesma sala de aula, disse que todos riam da história de fachada. "Nós na Bulgária vemos muitos caras da máfia", disse. "Para nós é como 'tanto faz'". 

A solidão de Skripal na cidade aumentou com a morte de sua mulher, em 2012, de câncer, dois anos e três meses após a troca. Em 2017, seu filho, Sasha, com uma doença nos rins, morreu durante uma viagem de trem de fim de semana para São Petersburgo, aos 43 anos. A última integrante da família, Yulia, tinha voltado para Moscou com seu namorado. 

No ano passado, ele se engajou em uma conversa com um casal de imigrantes russos em uma loja de conveniência em Londres, e os surpreendeu ao pedir que o visitassem em Salisbury. Ele descreveu a morte de sua mulher e do filho com lágrimas nos olhos, disse o empresário Valery Morozov. 

Contatos com colegas da inteligência os levou de volta aos velhos dias. Ele fez repetidas visitas para reuniões com o CNI, o serviço de espionagem na Espanha. Viajou para a Estônia, República Checa, entre outros lugares. 

"Basicamente, eram pessoas do mesmo lado, que costumavam se sentar em lados opostos (no passado)", disse um oficial da inteligência europeia, falando em condição de anonimato para descrever uma visita de Skripal a Praga em 2012. "Eles almoçaram juntos. Isso durou por horas. Foi muito divertido." 

O governo britânico, que ajudou a esquematizar a reunião de Skripal, não disse nada sobre ela e especialistas em espionagem disseram que não foi nada além de palestras sem muita importância. Mas não está claro que informações Skripal estava repassando. E funcionários russos talvez tenham ficado mais ressentidos do que os colegas britânicos suspeitavam, disse Alexei A. Venediktov, editor-chefe da estação de rádio Ekho Moskvy, de Moscou, que reportou amplamente o caso. 

"Quando se está do lado de lá, você não trabalha contra nós, essa é a regra", disse Venediktov. "Não está escrito em nenhum lugar, mas é sabido. Se você foi perdoado por seu passado, no seu futuro, viva com a sua pensão, vá plantar flores, viva discretamente e quieto. Essas são as condições. Você não usa seus talentos militares contra a Rússia, contra a União Soviética. O que fez Skripal? Está confirmado, ele violou essa regra."

Em março, e ex-espião e a filha Yulia foram envenenados com o agente neurotóxico novichok. Os dois conseguiram sobreviver após semanas internados sob intenso tratamento. O ex-espião está em um local não revelado./ NYT 

 

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