Considerados mercenários, negros sofrem perseguição

Associados à guarda pretoriana de Kadafi, imigrantes da África subsaariana são presos e hostilizados nas ruas

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Há uma escala no sentido pejorativo com que se chamam os negros na Líbia: "asswan" significa simplesmente preto; "negro asswan" acrescenta uma dose maior de preconceito; "abed" - ou escravo - expressa o desprezo abertamente. Mas a palavra que traz hoje o risco de morte para os negros líbios e principalmente os imigrantes da África Subsaariana é "mortazakar" - mercenário.

Ao longo da guerra civil, a participação de africanos do Chade, Níger, Gana, Somália, Eritreia e de outros países, que lutaram a favor do ditador Muamar Kadafi em troca de dinheiro, transformou os negros em inimigos na Líbia. Sua presença foi constatada pelo Estado em grande proporção, desde a primeira batalha pela refinaria de Brega, no dia 2 de março, até a tomada de Trípoli, há uma semana.

Agora os negros que não conseguiram - ou não quiseram - voltar para casa estão sendo hostilizados nas ruas e muitas vezes presos pelos rebeldes, sob acusação de serem mercenários, mesmo que não haja qualquer evidência disso.

"Expressamos ao Conselho Nacional de Transição nossa preocupação e condenação pela perseguição aos negros", disse ontem Diana el-Tahawy, da Anistia Internacional (AI), em Trípoli. "Há muita gente armada, prendendo as pessoas sem critério, e os negros se tornaram um dos alvos prioritários deles."

Ela disse que os observadores da AI encontraram centros de detenção especialmente destinados a negros.

Onze imigrantes do Níger escondiam-se ontem em um quintal no bairro pobre de Sabaa, no leste de Trípoli. "Estamos acampados aqui juntos porque temos medo de que as pessoas nos confundam com mercenários", disse Marou Yahia, de 39 anos, que trabalha em uma olaria. À pergunta sobre se gostaria que Kadafi voltasse, Yahia fez uma pausa antes de responder: "Só queremos que a paz volte."

O jardineiro Said Ali Mohamed, de 35 anos, há 18 na Líbia, não esconde seu apreço por Kadafi. "Eu gosto dele, não o odeio, mas não é hora de falar isso. O governo dele foi bom para nós."

Em Benghazi, desde o começo da guerra civil, e agora em Trípoli, os "mercenários" são representados por bonecos de pano enforcados, com capacetes amarelos, usados pelos operários da construção civil. Dedicados a trabalho pesados, os imigrantes contam que ganhavam entre 30 e 40 dinares (entre US$ 20 e US$ 27) por dia - muito mais do que em seus países de origem.

Apesar de estarem na Líbia até há 20 anos, nenhum desses trabalhadores têm documentos. Mas sua presença era não só consentida como incentivada. Muitos líbios se ressentem de que Kadafi doou terras - às vezes confiscadas de cidadãos do país - para imigrantes subsaarianos. Com isso, o ditador os converteu simbolicamente em membros de sua tribo, segundo a tradição africana. Isso também explica a disposição de alguns deles de lutar por Kadafi.

O grupo encontrado pelo Estado não sabe se quer voltar para o Níger. "Depende de como vai ficar", disse Mohamed. Um navio fretado pela Organização Internacional para a Migração, agência da ONU, atracou na segunda-feira em Trípoli para resgatar imigrantes negros que queiram deixar a Líbia.

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