REUTERS/Ivan Alvarado
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Constituinte criou expectativas altas demais no Chile; leia entrevista 

Para o analista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York, protestos de 2019 fizeram parecer que nova Constituição seria um passe de mágica

Entrevista com

Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York

Thaís Ferraz / Enviada Especial , O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2021 | 05h00

SANTIAGO - O Chile vive neste domingo, 19, eleições acirradas que podem jogar o país à esquerda, com o candidato Gabriel Boric, ou à extrema direita, com José Antonio Kast. Apesar da polarização entre os dois projetos à mesa, no entanto, os eleitores se identificam cada vez menos com os dois pólos, afirma Patricio Navia, analista político da Universidade de Nova York. “Os chilenos se definem como de centro. Há uma parte da sociedade que está muito politizada, mas a participação política, de modo geral, é baixa”, explica. “Os que têm posições claras são aqueles que já participam do processo eleitoral.”

As eleições acontecem pouco mais de dois anos após protestos massivos tomarem o país e em meio ao processo de elaboração de uma nova Constituição, que, acredita Navia, criou expectativas altas demais no Chile. “Os protestos de 2019 fizeram com que o processo constituinte parecesse uma coisa mágica, que solucionaria todos os problemas do país”, afirma. “As pessoas tinham muitas expectativas de que a nova Constituição daria a todo mundo os seus direitos e ampliaria aqueles que elas já têm.”

Confira a entrevista completa:

Historicamente, a sociedade chilena é politicamente engajada? 

Em geral, no Chile, há cada vez menos identificação ideológica com esquerda ou direita. As pessoas se definem mais como de centro. Há uma parte da sociedade que está muito politizada, mas a participação eleitoral é baixa. Quem têm posições claras são aqueles que participam. 

Houve intensificação do debate político no Chile nos últimos anos?

Há mais movimentos políticos nas ruas. Vimos marchas importantes. Mas o Chile tem história de ativismo. Veja as manifestações de 2006 e de 2011. Temos tido manifestações por bastante tempo. A sociedade até que está polarizada, mas ainda há pouca participação. 

Quais eventos explicam o que acontece hoje no Chile?

O processo constituinte influenciou muito nas eleições presidenciais e nas expectativas das pessoas. Os protestos de 2019 fizeram com que o processo constituinte parecesse uma coisa mágica, que solucionaria todos os problemas do país. As pessoas tinham muitas expectativas de que a nova Constituição daria a todo mundo os seus direitos, ampliaria aqueles que já têm, como aposentadoria e saúde. O processo constituinte criou expectativas altas demais. 

O que pode acontecer ao Chile em caso de vitória de Kast ou Boric?

Em ambos os casos, a situação no Chile vai ser muito complexa. Porque, independentemente de quem ganhe a eleição, o país estará passando pelo processo constituinte. Então, a convenção constituinte terá muita influência para decidir o que acontece no próximo governo. O futuro presidente estará um pouco de mãos atadas. É importante entender que a constituinte terá a última palavra. Por isso, tenho a impressão que, se Kast vencer, haverá um confronto entre ele e os constituintes. Se Boric vencer, provavelmente, o conflito não será tão grande, mas ele precisará ser mais moderado para conseguir governar.

A polarização que se vê hoje no Chile segue tendências globais ou latinas?

Sim. Há semelhanças, mas também diferenças que são importantes. Em termos de semelhanças, podemos citar o discurso populista de direita, anti-imigração, mais conservador em relação a valores. Mas há diferenças. Kast é um conservador de verdade. Ele só esteve casado uma vez, tem 9 filhos, é diferente de Bolsonaro, por exemplo. É um conservador que vive sua vida conservadora. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que o discurso de Kast é muito mais no sentido de manter o modelo chileno, econômico, contra a opção da esquerda, que é mudá-lo. Ele fala de uma posição de status quo, embora tenha posições mais à direita do que o Chile de hoje, como em relação ao casamento igualitário e ao aborto. A diferença do Chile para os EUA, em 2016, e para o Brasil, em 2018, é que Kast é o candidato da continuidade, e não da mudança. 

 

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