AFP PHOTO / JUAN BARRETO
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‘Constituinte não é para aniquilar o adversário', e sim para o diálogo, diz ex-chanceler venezuelana

Em entrevista à agência 'France Presse', Delcy Rodríguez nega que o chavismo esteja pensando em negociar sua saída do poder

Entrevista com

Delcy Rodríguez, ex-chanceler da Venezuela

Alexander Martinez, AFP, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 16h40

CARACAS - Delcy Rodríguez, a beligerante ex-chanceler venezuelana, quem o presidente Nicolás Maduro chama de "tigresa" por sua defesa ferrenha do governo socialista, integra uma espécie de estado-maior que conduzirá a Assembleia Constituinte, cuja votação está sendo realizada neste domingo, 30.

A advogada de 48 anos afirmou em entrevista à agência de notícias France-Presse que a Assembleia que redigirá uma nova Carta Magna não tem o objetivo de aniquilar a oposição, que se afastou do processo, e nega que o chavismo está pensando em negociar sua saída do poder.

O que visa o governo com a Constituinte?

É a única saída imediata que temos para resolver os problemas entre os venezuelanos, garantir a paz e derrotar a violência. Diante das balas e do ódio, votos. A nova Constituição será submetida a referendo, ali estará sua legitimidade.

A oposição diz que instaurará uma ditadura comunista. O que você tem a dizer sobre isto?

Uma Constituinte não pode ser regressiva aos direitos que já estão em nossa Constituição. Pelo contrário, é para o progresso dos direitos.

Vai existir uma caça às bruxas?

Não se trata de perseguir pessoas, e sim o delito. Uma das propostas que levarei à Constituinte é transferir a titularidade da ação penal do Ministério Público à vítima.  A direita substituiu a ação política pela ação criminal. Você nunca viu a direita condenando cada vez que lincham ou queimam viva uma pessoa (...) por ser chavista. A maioria destes dirigentes têm imunidade parlamentar, mas a assumiram como uma espécie de licença para delinquir. Estamos a poucas horas de que uma maioria política se pronuncie a favor da paz (...). A oposição verá se atende a mensagem do povo ou o mandato de Washington.

Esta maioria incluirá setores da oposição?

Absolutamente. A maioria não quer a guerra.

O Parlamento será dissolvido?

O que está planejado é a convivência, deve existir um processo de coexistência. O que não pode acontecer é os poderes constituídos desconhecerem as decisões tomadas na Constituinte. Chegaremos (ao Palácio Legislativo) com nosso retrato do libertador Simón Bolívar e do comandante Hugo Chávez.

O que acontecerá com a Procuradoria?

A Justiça está em dívida com os postulados de igualdade da revolução, porque deve ser imparcial, não deve ter peso político. Este equilíbrio foi rompido e por isso vamos à construção de um verdadeiro estado de direito.

Alguns países dizem que não reconhecerão a Constituinte. Isso diminui a legitimidade?

A mim, parece ridículo ver expressões desta natureza. A posição dos EUA é agressiva em todo o mundo. A Venezuela levantou sua voz e por isso seu modelo é considerado uma ameaça.

Você se sente uma figura poderosa do chavismo?

Não se trata de poder, e sim de fidelidade a um projeto histórico.

O chavismo está debilitado?

Não, o chavismo é força viva. Caso contrário, não teríamos resistido a sanções, agressões midiáticas, econômicas, bloqueios financeiros. Não estaríamos aqui. O presidente Maduro não tem trégua nem por um dia, mas se não fosse pelo chavismo, a Venezuela estaria em outra conjuntura.

A Constituinte ajudará o diálogo?

Quando a direita ganhou o Parlamento em 2015 houve um desequilíbrio profundo, porque uma de suas primeiras ações foi desconhecer o chavismo. Este desequilíbrio vai ser reparado na Constituinte.

Maduro revelou diálogos com a oposição. Por quê não prosperaram?

O principal problema da Venezuela é a falta de uma liderança unificada na oposição para alcançar qualquer tipo de acordo. Ela está profundamente dividida. Mas vamos persistir, a única via é o diálogo. A Constituinte não é para aniquilar o adversário, é para o reconhecimento, a convivência e o diálogo.

Que revelação fez o ex-chefe de governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero?

A oposição havia pedido reserva absoluta deste processo de diálogo. O papel dos acompanhantes deve recair no respeito à soberania. Houve uma espécie de deslize quanto a este papel. Mas quero agradecer o papel do presidente Rodríguez Zapatero em prol da paz.

O trabalho continuará?

Sem dúvida. Ele é um homem de paz.

O diálogo será para negociar a saída do chavismo?

Jamais. Nós nunca vamos trair nosso projeto histórico. Jamais vamos entregar as bandeiras. Estamos dispostos ao entendimento mediante o diálogo. Para a paz, tudo; para a guerra, nada. O chavismo não enfrenta a direita venezuelana, e sim os poderes mundiais, dos quais esta direita é um instrumento. / AFP

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