REUTERS/Carlos Garcia Rawlins/File Photo
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins/File Photo

Chavismo tira imunidade de deputados acusados de tentar matar Maduro

Governo leva à Justiça os opositores Juan Requesens e Julio Borges, ex-presidente do Parlamento exilado na Colômbia, a quem atribui a organização de um ataque com drones

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2018 | 00h37
Atualizado 08 Agosto 2018 | 21h25

CARACAS -  O governo venezuelano retirou a imunidade e processará os parlamentares opositores Julio Borges e Juan Requesens, acusados pelo presidente Nicolás Maduro de ter tentado assassiná-lo com explosivos em drones durante seu discurso numa parada militar, no sábado. Requesens foi detido na noite de terça-feira e Borges teve uma ordem de prisão emitida nesta quarta-feira, 8.

A Assembleia Constituinte, estabelecida pelo chavismo para tirar as funções do Congresso, de maioria opositora, retirou a imunidade dos deputados logo após o Tribunal Supremo de Justiça, pró-Maduro, anunciar que processaria os dois. Requesens, de 29 anos, foi preso com sua irmã Rafaela, uma ex-líder estudantil. Borges está exilado desde fevereiro na Colômbia.

“São os dois primeiros a aparecer na investigação. A todos aqueles que estiverem envolvidos, a Justiça chegará a eles”, disse o presidente da Constituinte, Diosdado Cabello, após a aprovação, por unanimidade, da retirada de imunidade. 

O tribunal ordenou a imediata detenção de Borges sob a acusação de tentativa de homicídio doloso qualificado contra Maduro. O tribunal declarou ainda procedente a acusação contra Requesens. Borges e Requesens são copartidários no Primeiro Justiça, do ex-candidato presidencial Henrique Capriles. “Chegaram à residência dele sem ordem judicial e o levaram à força”, disse a jornalistas Guillermo Requesens, pai do deputado. 

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Ao informar hoje à imprensa sobre a investigação, o procurador-geral, Tarek William Saab, disse que três dos sete detidos no fim de semana após o ataque foram apresentados a um juiz. Segundo ele, a Justiça está avaliando uma solicitação de extradição à Colômbia e aos EUA dos “financiadores” do ataque. “Após os interrogatórios ficou estabelecida a vinculação direta de pelo menos 19 pessoas na tentativa de magnicídio”, declarou Tarek. 

Borges condenou o que considerou sequestro de Requesens. “Fomos acusados de tudo porque conseguimos promover as sanções (contra o governo) e obtivemos o cerco internacional a Nicolás Maduro. Queremos ver Maduro fora do poder”, disse Borges a jornalistas em Bogotá.

Maduro assegura que por trás do suposto atentado está o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos que, assim como grande parte da comunidade internacional, não reconheceu sua reeleição em 20 de maio, por considerá-la ilegítima.

Em novembro, a Constituinte suspendeu a imunidade do legislador Freddy Guevara, refugiado na Embaixada do Chile em Caracas, acusando-o de ter cometido delitos durante protestos contra Maduro que deixaram 125 mortos em 2017.

O Legislativo, único poder que a oposição controla, mesmo que não tenha poder na prática, anunciou que desconsiderará a suspensão da imunidade imposta pela Assembleia Constituinte. 

Borges, advogado de 48 anos, é uma das principais figuras opositoras. Ele liderou a oposição nas negociações com o governo, que fracassaram no começo do ano na República Dominicana.

Confrontado com uma grande rejeição popular em meio à crise socioeconômica, Maduro acusa o opositor de promover uma intervenção estrangeira, liderada pelos Estados Unidos e pela Colômbia.

Requesens, por sua vez, é um ex-dirigente estudantil, que teve papel de destaque nas manifestações antigoverno de 2017. O presidente socialista chama o deputado de “psicopata”.

Borges e Requesens foram mencionados por um militar reformado, Juan Carlos Monasterios, um dos detidos no fim de semana, segundo vídeo difundido por Maduro com o testemunho desse sargento na Procuradoria. Monasterios aparece com o rosto desfocado assegurando que Requesens, “por intermédio de Julio Borges”, gerenciou as conversas entre a Venezuela e a Colômbia para o treinamento dos responsáveis, que o governo disse ter ocorrido em uma fazenda em Chinácota, na Colômbia. Segundo Maduro, os envolvidos teriam recebido US$ 50 milhões como pagamento pelo suposto ataque.

Maduro apontou como possíveis autores intelectuais da ação Rayder Alexander Russo Márquez, conhecido como Pico, e Osman Alexis Delgado, ambos envolvidos no ataque a um forte venezuelano em agosto de 2017. / AFP, EFE, REUTERS e AP 

 

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