Laura Boushnak/The New York Times
Laura Boushnak/The New York Times

Construção de hidrelétrica pela Etiópia ameaça controle do Egito sobre o Nilo

A Grande Barragem do Renascimento, construída 3,6 mil quilômetros rio nilo acima, nas planícies da Etiópia, ameaça se converter em duelo geopolítico na África

Declan Walsh e Somini Sengupta, do New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 11h59

MINYA, Egito - O fazendeiro egípcio estava no campo coberto pela terra seca, lamentando sua sorte. Alguns anos atrás, estufas cheias de trigo e tomate cobriam o terreno. Agora, o deserto está tomando tudo. 

“Olha. Estéril”, ele disse, apontando para o solo arenoso e estufas abandonadas. Hamed Jarallah atribui suas angústias à irrigação cada vez menor do Nilo, o lendário rio no coração da identidade egípcia. O Nilo já estava sob os ataques da poluição, da mudança climática e do crescimento populacional do país, que atinge oficialmente 100 milhões de pessoas este mês. 

E agora, acrescenta Jarallah, uma nova calamidade surgiu. Uma barragem hidrelétrica colossal que está sendo construída no Nilo, 3,6 mil quilômetros rio acima, nas planícies da Etiópia, ameaça restringir ainda mais o suprimento de água do Egito — e ela deve começar a encher neste verão. 

“Estamos preocupados. O Egito não existiria sem o Nilo. Nosso sustento está sendo destruído, Deus nos ajude”, ele disse.

A disputa entre os dois países sobre a Grande Barragem do Renascimento da Etiópia se tornou uma preocupação nacional em ambas as nações, alimentando patriotismo, medos arraigados e até rumores de guerra. A represa estimada em US$ 4,5 bilhões (cerca de 20 bilhões de reais) será a maior da África e terá um reservatório do tamanho de Londres.

Para os etíopes, a barragem é um acalentado símbolo de suas ambições — um megaprojeto com o potencial para iluminar milhões de casas, gerar bilhões com venda de eletricidade para países vizinhos e confirmar o lugar da Etiópia como uma potência africana em ascensão. 

Depois de anos de progresso instável, incluindo escândalos de corrupção e a misteriosa morte de seu engenheiro-chefe, as duas primeiras turbinas foram instaladas. Autoridades dizem que a barragem começara a encher em julho.  

Essa perspectiva induz o medo no Egito, onde a barragem é vista como a mais fundamental das ameaças. O país é um dos mais secos do mundo, com 95% da população morando ao longo do Nilo ou do seu Delta. O rio, que flui de sul para o norte, fornece quase toda a sua água potável.    

Especialistas emitiram previsões terríveis de campos ressecados, torneiras vazias e ameaças aos agricultores no extenso Delta do Nilo, que produz dois terços do suprimento alimentar do Egito. Os riscos de secas frequentes e intensas em um planeta mais quente aumentam a tensão. 

O presidente Abdel Fattah el-Sisi, o governante autocrático do país, apostou sua autoridade na defesa do rio. “O Nilo é uma questão de vida, uma questão de existência do Egito — ele disse na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro.” 

Durante oito anos, autoridades do Egito, Etiópia e Sudão — que fica entre os dois países — brigaram sem sucesso pela barragem. Os egípcios temem que, se cheia rapidamente, a barragem possa reduzir drasticamente seu suprimento de água. Em novembro, em um esforço de última hora, as negociações foram para Washington, com mediação da Casa Branca. 

O presidente Donald Trump, jogando com sua autoimagem como negociador, sugeriu que seus esforços poderiam merecer um prêmio Nobel. A Casa Branca está pressionando por um acordo até o final de fevereiro, mas autoridades egípcias e etíopes alertam que não será fácil. 

Em uma entrevista no mês passado, Seleshi Bekele, ministro da Água na Etiópia, chamou as reinvindicações do Egito para o Nilo de “a coisa mais absurda que você já ouviu”.  

O Egito justificou seu domínio sobre o rio citando um tratado de água da era colonial e um acordo de 1959 com o Sudão. Mas a Etiópia não os reconhece e, quando seu ex-líder, Mengistu Haile Mariam, propôs a construção de uma série de barragens no Nilo em 1978, ele enfrentou ameaças veladas. 

A Represa do Renascimento abrange o Nilo Azul, o principal afluente do rio, que fornece a maior parte da água do Egito. O jovem líder modernizador da Etiópia, Abiy Ahmed, insiste que os medos egípcios sobre seu impacto são exagerados. Depois de assumir o cargo de primeiro-ministro em 2018, Abiy voou para o Cairo para oferecer suas garantias. 

“Juro, juro, não prejudicaremos o suprimento de água do Egito”, disse ele a repórteres. Mas no outono passado, as preocupações estavam voltando a aumentar, e Abiy fez ameaças.

Em outubro, menos de duas semanas depois de vencer o Prêmio Nobel da Paz por resolver o longo conflito de seu país com a Eritreia, ele disse aos legisladores etíopes que "nenhuma força pode impedir" a Etiópia de completar a barragem. Se fosse o caso, acrescentou Abiy, ele conseguiria "milhões de pessoas prontas" para a guerra com o Egito.

Enquanto as duas nações discutem sobre a barragem, os hidrologistas dizem que as ameaças mais preocupantes para o Nilo são o crescimento populacional e as mudanças climáticas. A população do Egito aumenta em 1 milhão de pessoas a cada seis meses — uma taxa crescente que a ONU prevê que levará à escassez de água até 2025.

O Egito de Sisi fez pequenos esforços para se preparar. As autoridades impuseram restrições às lavouras intensivas em água, como arroz e banana. Às sextas-feiras, os clérigos fazem sermões ditados pelo governo, enfatizando as virtudes da conservação. 

No Dia do Julgamento, advertiu um desses sermões: “Deus verá com bons olhos” o desperdício de água. 

Mas há críticas sobre a própria administração egípcia do Nilo. O esgoto flui para as águas, e o lixo causa o entupimento de canais de irrigação. Líderes do país começaram esquemas grandiosos que sugam o rio. O próprio Sisi está construindo uma nova capital administrativa no deserto nos arredores do Cairo que, segundo especialistas, esgotará ainda mais o Nilo. 

A represa tornou-se o foco das preocupações hídricas do Egito. O principal ponto de discórdia com a Etiópia é a rapidez com que deve se encher. A Etiópia disse que será em apenas quatro anos, mas o Egito, temendo uma seca durante o período de preenchimento, argumentou por 12 anos ou mais. 

 

Disputa Política

Além dos argumentos técnicos, a disputa é impulsionada pela política. Sisi, um militar forte, é extremamente sensível a insinuações de que é complacente em relação à segurança do Egito. 

Abiy, que enfrenta eleições este ano, está sob pressão de etíopes comuns que ajudaram a financiar a barragem comprando títulos emitidos pelo governo. A análise geral é que ele precisa entregar um projeto de prestígio em um país que se considera uma potência emergente. 

 

A  Etiópia tem uma das economias que mais crescem no mundo. A barragem oferece a chance de se tornar o maior exportador de energia da África. E, assim como no Egito, o Nilo é central para o senso de identidade do país. 

Durante uma entrevista ao New York Times na barragem em 2018, Semegnew Bekele, gerente de projetos, disse que o empreendimento "erradicaria nosso inimigo comum, a pobreza".

Logo depois, ele foi encontrado caído ao volante do seu Toyota Land Cruiser, um tiro na cabeça. A polícia considerou um suicídio. Algumas semanas depois, Abiy demitiu o principal contratado da barragem por acusações de corrupção generalizada. 

Apesar dos contratempos, os etíopes disseram que estão perto de terminar a represa. Eles começaram a construí-la em 2011, no auge da Primavera Árabe, quando o Cairo ainda estava em ebulição, e as hostilidades perseguiram o projeto desde o início. 

Sisi insiste que quer uma solução pacífica, embarcando em uma ofensiva diplomática para obter apoio dos vizinhos da Etiópia. O Museu do Nilo, inaugurado em Assuã, no Sul do Egito, em 2016, enfatiza os laços do país com seus "irmãos africanos". No interior, uma cachoeira de três andares simboliza o Nilo atravessando 10 países africanos antes de chegar ao Egito. 

No entanto, Sisi também enviou uma mensagem que está pronto para resistir de outras maneiras. O Egito fomentou laços com os adversários da Etiópia, enviando armas para o governo do Sudão do Sul, de acordo com investigadores da ONU. Na Etiópia, autoridades acusaram o Egito de patrocinar protestos contra o governo e rebeliões armadas — acusações que o Cairo nega. Nas negociações, Sisi está em grande desvantagem; quanto mais longas as negociações, mais a Etiópia se aproxima da conclusão da barragem.

 

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