Construção de muro para separar duas cidades gera polêmica na Argentina

Para prefeito do município de San Isidro paredão evitará entrada de 'criminosos' de cidade vizinha.

Marcia Carmo, BBC

09 de abril de 2009 | 17h28

O início da construção de um muro de 250 metros de comprimento para separar as cidades de San Isidro e San Fernando, na província de Buenos Aires, tem causado polêmica na Argentina.

A instalação do paredão foi determinada pelo prefeito de San Isidro, Gustavo Posse, que argumenta que o muro vai aumentar a segurança em seu município.

Segundo o prefeito, o muro servirá para barrar a entrada de criminosos nos bairros nobres de San Isidro.

"Cerca de 80% dos crimes cometidos em nossa cidade são de autoria de pessoas de outros municípios. Nossa cidade é muito segura, mas para que esta segurança seja mantida, precisamos destes corredores de segurança", afirmou Posse ao canal 13 de televisão.

O prefeito afirmou ainda que "dentro da lei, fará de tudo para proteger os moradores".

Polêmica

O início da construção do paredão fez com que a prefeitura da vizinha San Fernando entrasse com uma ação na justiça contra o muro.

Em declarações à imprensa argentina, o prefeito de San Fernando, Gerardo Amieiro, classificou o muro como "discriminatório" e "vergonhoso".

Amieiro também afirmou que "em vez de dividir, é preciso construir mais cidades".

Um grupo de jovens de San Fernando tentou arrancar a parte já construída, mas não obteve sucesso.

Os governos da Argentina e da Província de Buenos Aires também reagiram contra a medida, e solicitaram que o paredão não seja construído.

O chefe de Gabinete da Presidência argentina, Sergio Mazza, afirmou que "em vez de erguer muros, é preciso abrir estradas" e "evitar discriminações".

A secretária de Assuntos Municipais do Ministério do Interior, Raquel C. Kismer de Olmos, enviou uma carta ao prefeito de San Isidro solicitando que ele interrompa as obras.

"Trata-se de uma decisão incorreta, que atenta contra a democracia, a Constituição nacional e a convivência", afirmou.

Segundo ela, a construção é baseada "em um suposto sentimento de segurança dificilmente comprovável".

Por sua vez, o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, classificou o muro como um "erro" e "símbolo da discriminação".

Ao saber das afirmações do governador, o prefeito de San Isidro afirmou que o paredão é uma resposta ao fato de o governo da Província não conseguir garantir a segurança na região.

Mesmo com a polêmica, o prefeito de San Isidro reiterou que não pretende interromper as obras.

Rio de Janeiro

A situação levou a emissora de televisão TN(Todo Notícias) a comparar a polêmica com os muros que começaram a ser erguidos em favelas cariocas pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.

Na metade da tela, o canal de TV exibiu imagens do Rio de Janeiro, enquanto a outra metade mostrava o muro branco de San Isidro pichado com frases como "somos iguais" e "ditador sangrento".

As localidades de San Isidro e San Fernando, no norte de Buenos Aires, concentram residentes de alto poder aquisitivo.

Porém, as duas cidades também possuem bairros sem saneamento básico e com altos índices de pobreza.

O muro, de 250 metros, foi planejado, segundo a imprensa local, para aumentar a segurança do bairro de classe alta La Horqueta, em San Isidro, e para evitar que os moradores do bairro carente de Villa Jardín, em San Fernando, caminhem no local. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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