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Construindo o capital espiritual

Ignorar o desenvolvimento espiritual no âmbito da educação pública é como ignorar o desenvolvimento intelectual, físico ou social

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2015 | 02h02

Lisa Miller é professora de psicologia e educação no Teachers College, Universidade Columbia.

Um dia ela entrou num trem do metrô e viu que metade dele estava cheio, mas a outra metade estava totalmente vazia, exceto por um sem-teto com um pouco de comida de fast food no colo, que gritava para ninguém se aproximar.

Na parada seguinte, uma avó e a neta de cerca de 8 anos entraram no vagão. Elas estavam elegantemente vestidas com roupas em tons claros e luvas com detalhes rendados.

O sem-teto as avistou e gritou, "Êi! Querem sentar comigo?" Elas se entreolharam, acenaram com a cabeça, e responderam em uníssono, "Obrigada". E, diferentemente, de todo os demais, sentaram-se diretamente ao lado dele.

O homem lhes ofereceu um pedaço de frango de seu saco. Elas se entreolharam, acenaram uma para outra com a cabeça e disseram: "Não, obrigada".

O sem-teto ofereceu-lhes muitas outras vezes e a cada vez elas acenavam com a cabeça e davam a mesma resposta polida. O sem-teto finalmente se acalmou, e todos se sentaram satisfeitos em seus assentos.

Miller ficou impressionada com o poder daquele gesto de cabeça. "O aceno era espiritualmente compartilhado entre a criança e a idosa amada: direção espiritual, valores, ensinados e recebidos na relação amorosa", ela escreve em seu livro The Spiritual Child (A criança espiritual, em tradução literal).

A avó estava ensinando à neta o saber de que já fomos todos estranhos numa terra estranha e somos julgados pela maneira como tratamos os que têm menos.

Recursos espirituais. O argumento central de Miller é que a consciência espiritual é inata e ela é um componente importante do desenvolvimento humano. Uma implicação de sua obra é que se cuidamos de mobilidade social, taxas de graduação, resistência, realização e formação familiar, não podemos ignorar os recursos espirituais das pessoas que estamos tentando ajudar.

Miller define espiritualidade como "um sentimento interior de relação com um poder superior que é amoroso e orientador".

Pessoas diferentes podem conceber esse poder superior como Deus, natureza, espírito, o universo, ou simplesmente uma singularidade geral de ser. Ela distingue a espiritualidade, que tem um componente genético provável, de filiação religiosa, que é inteiramente influenciada pelo ambiente.

Eu diria que Miller não dá suficiente atenção às muitas maneiras seculares mundanas que as pessoas encontram para organizar suas vidas.

Mas parece verdade que a maioria das crianças nasce com um senso natural do espiritual. Se encontram um esquilo morto no playground, elas compreendem que há alguma coisa de sagrada ali, e muito provavelmente lhe darão um enterro respeitoso.

Elas têm um senso natural da singularidade da criação, e um senso de um reino não material, transcendente. Miller cita estudos com gêmeos que sugerem que a força da consciência espiritual de uma criança decorre cerca de 29% da hereditariedade genética ampla, 24% do ambiente familiar e 47% do ambiente individual único da pessoa.

A consciência espiritual, ela continua, cresce na adolescência quase ao mesmo tempo que a depressão e outras ameaças ao bem-estar. Algum nível da depressão de adolescentes, diz ela, deve ser visto como uma parte normal do processo de crescimento, na medida em que os jovens fazem perguntas fundamentais sobre si mesmos.

O fortalecimento espiritual na adolescência é a maneira natural de responder a essa crise normal.

"Em conjunto", escreve Miller, "pesquisas sustentam a ideia de uma fisiologia comum subjacente a depressão e espiritualidade". Em outras palavras, adolescentes sofrem normalmente uma perda de significado, confiança e identidade. Alguns tentam preencher o vazio com drogas, álcool, atividades de gangues e até gravidez. Mas outros são cercados por pessoas que têm cultivado seus instintos espirituais.

Segundo a pesquisa de Miller, adolescentes com um forte senso de conexão com um mundo transcendente são 70% a 80% menos propensos a se envolver em abusos de substâncias pesadas. Entre garotas adolescentes, ter um forte senso espiritual foi extremamente protetor contra uma depressão séria.

Adultos que se consideram altamente espirituais aos 26 anos de idade estão, segundo sua pesquisa, 75% protegidos contra uma recorrência de depressão.

As capacidades espirituais inatas podem definhar se não forem cultivadas - do mesmo modo como faculdades matemáticas inatas podem ficar subdesenvolvidas sem instrução. Famílias amorosas nutrem essas capacidades, em especial quando pais falam explicitamente sobre buscas espirituais.

A questão maior, em especial nesta era de ruptura familiar, é se escolas e outras instituições públicas deveriam fazer mais para nutrir faculdades espirituais.

As escolas públicas com frequência dão pouca atenção à espiritualidade por temer acusações de proselitismo religioso. Mas deve ser possível ensinar o leque de disciplinas espirituais para familiarizar os alunos com as opções sem endossar nenhuma delas.

Numa época em que tantas pessoas saem dos trilhos durante a adolescência, não podemos ter o luxo de ignorar um recurso que, se for cultivado, pode detectá-los.

Ignorar o desenvolvimento espiritual no âmbito público é como ignorar o desenvolvimento intelectual, físico ou social. É amputar pessoas de uma maneira fundamental, acarretando mais depressão, abuso de drogas, alienação e miséria. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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