Construir governo de união no Peru é o maior desafio de Humala

Segundo analistas, candidato precisará acalmar o mercado e encontrar consenso para estabilizar seu governo.

Mariana Della Barba, BBC

06 de junho de 2011 | 16h57

A primeira promessa feita pelo nacionalista Ollanta Humala como presidente eleito do Peru, a de construir um governo de união, deve ser seu o maior desafio em seu início de governo, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

A urgência de Humala, eleito neste domingo após vencer a conservadora Keiko Fujimori, teria dois motivos principais.

O primeiro é lidar com um país que praticamente se dividiu ao meio com a eleição. Com quase 90% das urnas apuradas, o candidato de centro-esquerda teve 51,3% dos votos, contra 48,8% de Keiko. E um agravante: a metade dos peruanos que não votou para Humala tem uma grande aversão - e também um temor - em relação ao seu governo, já que essa foi uma eleição incrivelmente polarizada em que eleitores defendiam com afinco seus candidatos. A segunda razão da pressa do presidente eleito vem da necessidade de acalmar os mercados, que vivem desde a campanha o receio de ter um político de esquerda no poder e de que ele interviesse na economia, prejudicando o setor privado, especialmente a importante indústria mineradora do país. E a primeira reação do mercado peruano já dá a medida do cenário que enfrenta Humala: por volta das 11h da manhã desta segunda-feira (13h no horário de Brasília), a bolsa teve de ser fechada logo após entrar em operação, por ter atingido uma queda de 8,71%. Ponto de equilíbrio Para o historiador e analista político peruano Eduardo Toche, o desafio do presidente eleito nas próximas semanas é "encontrar um ponto de equilíbrio político em que haja elementos para estabilizar seu governo, mas sem acabar cedendo a interesses alheios a seus eleitores". A questão, segundo Toche, é ver até que ponto ele pode sacrificar pontos fundamentais de seu programa para obter estabilidade governamental. E os lados a serem contemplados não são poucos. Em primeiro lugar está a população - a metade pró-Humala e a outra, que o rechaçou nas urnas. Na opinião da socióloga e cientista política Cynthia Sanborn, para lidar com esse dilema o novo governo precisa definir temas em que haja um consenso e que sejam realmente plausíveis de ser colocados em prática no curto prazo. "A população espera resultados rápidos e concretos. Se o governo identifica temas para atacar de imediato e que seja algo que a oposição não terá como se opor, isso pode resultar em uma importante união", diz Sanborn, citando exemplos como projetos de educação primária ou o programa "Água para Todos". Fujimoristas Lidar com os opositores é outro grande desafio, já que há chances de eles não aceitarem ceder em pontos que tornaram Humala popular e rejeitem uma união. "É preciso lembrar que os líderes do fujimorismo que agora estão no poder não são da linha de Keiko, e sim muito mais duros e com experiência política, como Martha Chávez e Luz Salgado", lembra a analista, dizendo que com esses a negociação - se houver - certamente será mais tensa e pode dar lugar a um revanchismo. Dentro de sua própria base aliada, como lembra o economista peruano Gianfranco Castagnola, Humala terá de manter o controle sobre todos os grupos que o apoiaram nessa campanha: uma mescla de radicais com moderados e liberais. Para o analista político Fernando Rospigliosi, que foi ministro do Interior do presidente Alejandro Toledo, a chave para balancear a situação está mesmo no trato com as fileiras esquerdistas mais extremistas, seja entre os eleitores ou na base aliada. "Muitos dos que votaram por ele estão esperando um governo radical, assim como boa parte de seus aliados políticos", disse Rospigliosi à BBC Brasil. "Além de nomear alguns ministros de sua base aliada, sendo alguns mais radicais, ele precisa urgentemente nomear outros que sejam de confiança do mercado. Se não fizer isso nos próximos dias, vai se criar um pânico generalizado." Já o sociólogo Sinesio López Jiménez, da PUC Peru, acredita que essa reação negativa do mercado, como se viu na queda da bolsa, é algo mais passageiro, visto que Humala já não mais representava uma ameaça, pois vinha dando sinais para acalmar mercado e investidores. Um deles é a reunião que teve, durante a campanha, com o presidente da Confederação Nacional das Instituições Empresariais Privadas (Confiep, na sigla em espanhol), Humberto Speziani. A jornalista e analista peruana Jacqueline Fowks lembra que o fato de Speziani ter chancelado a candidatura de Humala já lhe dá vantagem para começar o governo esperando uma reação mais tranquila do setor econômico. Vargas Llosa Por último, o novo presidente peruano precisa contemplar lideranças que passaram a apoiá-lo na reta final da campanha. "O respaldo de grupos como os intelectuais peruanos - liderados por Mario Vargas Llosa - agora condiciona sua autonomia a respeito do que vai fazer e de quem vai acompanhá-lo", afirma Toche. Para Jiménez, da PUC Peru, a eleição de Humala foi histórica por ser a primeira vez que o setor progressista chega ao poder no Peru por meio de um processo eleitoral. Na opinião do analista, venceu a defesa dos que querem um avanço econômico com mais inclusão - num dos países que mais cresce no mundo (média de 6% nos últimos anos) - e menos corrupção. "Mais do que isso, o que favoreceu Humala foi o fato de sua rival não ter conseguido se livrar da pesada herança do governo de seu pai", disse, em referência a Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção. Às vésperas da votação, Keiko disse que havia aprendido com os erros do passado o não os repetiria. No entanto, como afirma Fowks, ela não conseguiu minimizar violações graves durante o governo de seu pai, como a esterilização forçada de milhares de peruanas no interior do país.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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