Cônsul da Índia: ‘Queremos duplicar o comércio com o Brasil nos próximos 5 anos’

Amit Mishra diz que missão do governo brasileiro e empresários deve fortalecer relações e aumentar comércio

Paulo Beraldo, ENVIADO ESPECIAL/NOVA DÉLHI

24 de janeiro de 2020 | 05h00

NOVA DÉLHI - O objetivo do governo indiano é duplicar o intercâmbio comercial com o Brasil nos próximos cinco anos, estreitar parcerias em áreas como bioenergia e atrair mais investimentos brasileiros. As afirmações são do cônsul da Índia em São Paulo, Amit Kumar Mishra. “O intercâmbio comercial de US$ 8,2 bilhões (números do governo indiano) não faz justiça ao comércio entre a quinta e a nona maior economia do mundo”, disse ele ao Estado. “O Brasil é reconhecido como líder mundial na área de biocombustíveis e pode ajudar a indústria de etanol na Índia a cumprir seus objetivos ambiciosos de 20% de etanol misturado com a gasolina até 2030”. Hoje, a mistura não passa de 7% em um país com 250 milhões de veículos. A seguir, trechos da entrevista. 

Quais são as expectativas do governo indiano com a viagem de Bolsonaro? 

O presidente Jair Bolsonaro será o principal convidado da 71.ª cerimônia de aniversário da República da Índia, com ministros, altos funcionários e uma importante delegação comercial. Esperamos que a visita contribua para o fortalecimento das relações entre os dois países e melhore a cooperação em todos os campos, já que temos uma relação multifacetada baseada em valores democráticos compartilhados.

A visita não apenas fortalece nossa parceria estratégica no nível bilateral, mas também enfatiza nossa visão global comum, refletida na participação em fóruns internacionais como Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul), Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) e G-20. Estamos trabalhando juntos para garantir que as organizações internacionais e organismos multilaterais como a ONU sejam mais representativos e passem a refletir uma ordem mundial alterada.

Em que áreas da economia essa visita pode render resultados concretos?

O presidente será acompanhado pela maior delegação comercial de todos os tempos do Brasil para a Índia (aproximadamente 70 empresários). Isso indica o foco em laços econômicos e comerciais. Prevemos que sejam concluídos vários acordos em áreas como facilitação de investimentos, mineração, bioenergia, agricultura, processamento de alimentos, tributos, criação de animais, petróleo, gás e energias renováveis.

O intercâmbio comercial de US$ 8,2 bilhões não faz justiça ao comércio entre a quinta e a nona maior economia do mundo. Não há razão para não alcançar metas mais ambiciosas, como duplicar o comércio nos próximos três ou cinco anos. Várias empresas indianas têm forte presença nos setores farmacêutico e de tecnologia da informação no Brasil. E elas estão cada vez mais explorando oportunidades de negócios em novos setores como infraestrutura, energia e serviços, por exemplo. As empresas indianas investiram US$ 6 bilhões no Brasil em comparação com o US$ 1 bilhão de investimento brasileiro na Índia. Esperamos que a visita incentive as empresas brasileiras a explorarem a Índia como um mercado de investimentos.

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O senhor citou alguns dos territórios inexplorados com potencial de parcerias e comércio. Pode detalhar melhor alguns deles?

Existe um enorme potencial para expansão em áreas de petróleo e gás, biocombustíveis, agricultura e processamento de alimentos, que vão além da relação entre comprador e vendedor. Podemos criar amplas parcerias. Por exemplo, a cooperação no petróleo pode ir além da simples venda, com o compartilhamento e transferência de tecnologias. 

O Brasil é reconhecido como líder mundial na área de biocombustíveis e pode ajudar a indústria de etanol da Índia a cumprir seus objetivos ambiciosos de 20% de etanol misturado com a gasolina até 2030. Existem lições para o setor agrícola indiano aprender com o Brasil, que foi de um importador de alimentos para um dos maiores produtores e exportadores agrícolas.

Existem também áreas estratégicas, como defesa e cooperação espacial, onde nossos compromissos estão em estágios muito iniciais e nem perto de seu pleno potencial. Com fortes fundações de pesquisa em ambos os países nas áreas de defesa, devemos procurar coprodução e codesenvolvimento de equipamentos de defesa. As agências brasileiras poderiam se beneficiar da conhecida experiência em ciência espacial e áreas afins, como sensoriamento remoto e previsão do tempo.

Também existe um potencial considerável em áreas emergentes, como startups, análise de big data, inteligência artificial, internet das coisas e segurança cibernética, que definirão a próxima onda de crescimento global. A Índia é o segundo maior ecossistema de startups de tecnologia e terceiro maior de fintechs. Precisamos de um envolvimento mais próximo entre os interessados nessas áreas nos dois países para resolver nossos desafios de desenvolvimento e crescimento.

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