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'Contágio midiático' dá impulso a assassinatos em massa nos EUA, diz estudo

Um dos principais traços comuns entre atiradores americanos é o narcisismo patológico, segundo pesquisa; autores fazem apelo para que imprensa não divulgue nomes, rostos e declarações de assassinos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

04 Agosto 2016 | 16h00

Pesquisadores americanos realizaram um estudo sobre o perfil dos atiradores que cometem assassinatos em massa nos Estados Unidos e concluíram que eles possuem três características em comum, o narcisismo patológico, a depressão fora de controle e o isolamento social.

Segundo os autores da pesquisa, essas características - em especial o extremo narcisismo - faz com que a cobertura da imprensa seja um fator importante na proliferação desse tipo de crime, por um processo que eles  denominam "contágio midiático".

No estudo, apresentado nesta quinta-feira, 4, na convenção anual da Associação Americana de Psicologia, os psicólogos fazem um apelo aos meios de comunicação americanos para que neguem aos atiradores a fama que eles buscam. Segundo eles, caso não sejam mais divulgados os rostos, histórias detalhadas e declarações dos assassinos, os massacres terão "uma dramática redução" em dois ou três anos.

"Os assassinatos em massa estão em ascensão, assim como a cobertura midiática deles", disse uma das autoras do estudo, Jennifer Johnston, da Universidade do Oeste do Novo México.

"Infelizmente, descobrimos que uma das características comuns em muitos perfis de assassinos em massa é o desejo pela fama. Essa busca da fama entre eles teve um impulso vertiginoso a partir do meio da década de 1990, em associação com a proliferação dos programas de TV a cabo com coberturas noticiosas por 24 horas e com a ascensão da internet", afirmou a pesquisadora.

Jennifer e seu colega Andrew Joy fizeram a revisão dos dados sobre assassinatos em massa acumulados por meios de comunicação, pelo FBI, por organizações de direitos humanos e por artigos científicos e concluíram que o "contágio midiático" é amplamente responsável pelo aumento dos massacres.

Os cientistas definiram assassinatos em massa como tentativas de matar múltiplas pessoas que não são parentes do criminoso. Segundo Jennifer, a ocorrência desses crimes aumentou em correlação com sua cobertura na imprensa e com a proliferação de sites e perfis em mídias sociais que tendem a glorificar os atiradores e minimizar o sofrimento das vítimas.

O perfil demográfico dos assassinos em massa é bastante consistente, segundo a pesquisadora. Em geral, eles são homens brancos, ostensivamente heterossexuais e com idades entre 20 e 50 anos. Eles tendem a ver a si mesmos como "vítimas de injustiça" e compartilham a crença de que foram trapaceados e espoliados de sua posição dominante como homens brancos de classe média.

Pacto midiático. Segundo Jennifer, existem diversos modelos de estudo do "contágio midiático". Um deles mostra que a taxa de assassinatos em massa saltou para uma média de um crime para cada 12,5 dias após o ano 2000. Antes, a média era de três eventos por ano. "Uma possibilidade é que essas notícias sobre os massacres tenham passado a se proliferar nas mídias sociais, além das mídias de massa", afirmou.

"Se as mídias de massa e os entusiastas das mídias sociais fizerem um pacto para não compartilhar, reproduzir ou retuitar nomes, rostos, histórias detalhadas ou longas declarações dos assassinos, nós veremos uma dramática redução dos assassinatos em massa em dois ou três anos", disse Jennifer.

"Mesmo conservadoramente, se os cálculos dos modelos de contágio estiverem certos, nós poderemos ter uma redução de pelo menos um terço dos ataques caso o contágio seja removido", explicou.

Segundo a psicóloga, a abordagem que poderia ser adotada é exatamente a mesma utilizada em meados da década de 1990, quando a imprensa fez um pacto para parar de reportar os suicídios de celebridades, depois dos modelos terem mostrado que o suicídio é contagioso.

Jennifer afirma que houve um "claro declínio" dos suicídios por volta de 1997, dois anos depois que o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos convocou um grupo de suicidologistas, pesquisadores e jornalistas para fazer recomendações à imprensa.

"A imprensa precisa se unir para incitar essa mudança social. Ela já fez isso e pode fazer de novo. Está na hora. Chega", disse Jennifer.

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