REUTERS/Brian Snyder
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Contaminação de Trump por covid-19 não deve ter impacto no resultado da eleição, dizem analistas

Polarização na sociedade americana, limitando alcance eleitoral de uma comoção, e ausência em eventos presenciais pesam contra o presidente, mas menor exposição a críticas pode ser favorável

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 13h59

A confirmação de que o presidente americano Donald Trump está com covid-19 não deve ser um fator decisivo nas eleições de novembro. Apesar de cedo para mensurar os efeitos da doença na campanha eleitoral do republicano, analistas ouvidos pelo Estadão dizem que a polarização da sociedade americana dá pouca margem para que uma eventual "comoção" tenha efeito relevante nas urnas.

No cenário projetado pelos especialistas pesa contra o presidente a ausência física em eventos de campanha, principalmente os comícios, ponto forte de Trump. Mesmo durante o período mais grave da pandemia da covid-19 no país,  o presidente defendeu a realização de grandes eventos.

"A princípio é uma má notícia para Trump, porque ele não pode participar dos eventos. Ele tem muitos eventos nas próximas semanas, é o momento decisivo da campanha", diz o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo Oliver Stuenkel.

A análise é endossada pelo professor de RI da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) Carlos Poggio. Para ele, a doença não deve alterar o resultado da eleição, mas altera a forma de fazer campanha, retirando de Trump seu maior trunfo. "Ele não é um grande debatedor e em entrevistas não costuma se sair bem. Onde ele realmente 'nada de braçada' é nos comícios, quando faz os stand-ups dele. É o formato que ele se sente mais a vontade e isso ele não vai poder fazer, pelo menos por enquanto", afirma Poggio, ressaltando que a covid inviabilizará viagens do presidente a Estados-pêndulo, decisivos nas eleições americanas.

Fazendo um contraponto, o pesquisador da universidade Harvard Hussein Kalout, ex-secretário de assuntos estratégicos do governo de Michel Temer, afirma que o fato novo alivia um pouco a pressão sobre Trump, deixando-o menos exposto a possíveis ataques dos democratas. 

"Não creio que ficar 15 dias isolado o afetará negativamente. Trump tem muito mais vulnerabilidades do que Biden e isso ficou patente no primeiro confronto entre os dois candidatos. Portanto, não participar do próximo debate não é necessariamente ruim para Trump. Aliás, o presidente pode  participar dos comícios de forma remota", avalia Kalout.

Apesar de não considerar a quarentena como um mal absoluto na campanha de Trump, Kalout também pondera que o fato não é um catalisador de votos para o presidente. De acordo com o pesquisador, a polarização na sociedade americana reduz eventuais "votos por comoção".

"A sociedade americana já estava profundamente dividida. A comoção que isso pode causar estaria mais constrita à base religiosa em alguns Estados como, por exemplo, a Carolina do Norte. O alcance eleitoral, portanto, seria mais limitado. O isolamento pode ajudar Trump a não ter de responder sobre uma série de vulnerabilidades como o seu imposto de renda e a desastrosa gestão de combate à pandemia."

Poggio também vê uma rigidez maior no cenário americano para que a doença do presidente se torne um elemento que ajude a angariar simpatia ao presidente. "Vai depender muito de como as coisas vão evoluir. Eu não tenho a menor dúvida de que Trump já está discutindo como ele pode se beneficiar politicamente dessa informação", declarou o professor.

A falta de precedentes históricos da infecção de um presidente americano em período eleitoral por um vírus como o coronavírus é um fator que dificulta a análise, segundo Stuenkel. Apesar disso, o professor também considera que, em princípio, o fato é negativo, mesmo considerando o fator de comoção.

"Como não se trata de um atentado - que, sim, pode 'dar um gás' na corrida eleitoral - eu acho que a contração de uma doença que ele minimizou, já que não fez nada para se proteger, é difícil de impactar positivamente."

'Tudo vai depender da dinâmica da doença'

O CEO e fundador da Ideia Big Data, Maurício Moura, acredita que a evolução da doença do presidente terá um peso relevante no tamanho do impacto eleitoral. Moura, que atualmente participa do OPM (Owners/President Management Program) da escola de negócios de Harvard, compara a situação de Trump com a de Boris Johnson, primeiro líder mundial entre as principais economias do mundo a ter a covid-19.

"Vai depender muito da evolução da doença. Se ele tiver um quadro assintomático, o impacto é mínimo. Se houver um agravamento do quadro e for necessária a hospitalização, como foi com Boris Johnson - que ganhou popularidade quando esteve hospitalizado - teremos um impacto a ser analisado com muito mais detalhamento", afirmou Moura, alertando que ainda não existem dados disponíveis para mensurar o impacto eleitoral.

Apesar disso, Moura disse não crer em uma grande alteração no resultado. "As duas campanhas estão basicamente trabalhando para convencer os convertidos. Fazer com que os apoiadores saiam para votar ou votem pelos correios, não tem uma campanha de convencimento".

O agravamento do quadro de saúde de Trump também traria impactos para a realização da campanha do republicano, como explicou Carlos Poggio. O professor pontuou que, caso a doença do presidente se estenda por mais de 15 dias - recomendados para casos leves - os atos programados podem ser ainda mais comprometidos.

"Temos aí alguma incerteza, porque muito depende de como vai ser a recuperação do Trump. Ele pode se recuperar daqui a 14 dias e ele pode ficar 30 dias ou mais com problemas. Trump é obeso, de idade de risco - 74 anos -, tem alguns problemas cardíacos de menor gravidade e outras questões normais da idade. Teremos que aguardar os impactos da evolução da doença".

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