Contaminação por chumbo revolta chineses

Casos de intoxicação espalham-se por várias regiões do país e revelam padrão de negligência do Estado

Sharon LaFraniere, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2011 | 00h00

Numa noite fria de maio, cerca de 200 pessoas se concentraram na China oriental na entrada da Indústria Zhejiang Haijiu, uma fabricante de baterias de chumbo para motos e bicicletas elétricas. Eles invadiram o edifício e, num acesso de fúria, destruíram armários, escrivaninhas e computadores.

Havia se espalhado a notícia de que trabalhadores e vizinhos tinham sido envenenados por emissões de chumbo da fábrica, que operava havia seis anos apesar das violações ambientais flagrantes. A verdade era ainda pior: 233 adultos e 99 crianças tinham concentrações de chumbo em seu sangue até sete vezes acima do nível considerado seguro pelo governo chinês.

Uma das crianças era Han Tiantian, de 3 anos, que vivia do outro lado da estrada na frente da fábrica. Seu pai, Han Zongyuan, que trabalhava na empresa, disse ter sido informado que ela havia absorvido chumbo suficiente para reduzir irreversivelmente sua capacidade intelectual e danificar seu sistema nervoso.

"Quando ouvi o médico dizer isso, meu coração ficou apertado", disse Han. "Nós queríamos que essa criança tivesse tudo. Era por isso que trabalhávamos tanto. Era por isso que nos envenenávamos nessa fábrica."

Cenas de ira semelhantes repetiram-se por toda a China nos últimos meses com a descoberta de vários casos de envenenamento em massa por chumbo - assim como de tentativas dos governos locais de ocultá-los.

Nos últimos dois anos e meio, descobriu-se que milhares de pessoas em pelo menos 9 de 31 regiões de nível provincial da China continental estavam expostas a níveis tóxicos de chumbo causados principalmente pela poluição de fábricas de baterias e fundições. Ao mesmo tempo, os casos destacam um padrão de negligência governamental.

Na busca dos dividendos políticos do desenvolvimento econômico, autoridades locais regularmente desconsideram contaminação ambiental, segurança do trabalhador e riscos à saúde pública até serem obrigadas a enfrentá-los em episódios como o motim da fábrica Haijiu.

Um relatório da Human Rights Watch divulgado na semana passada afirma que algumas autoridades locais reagiram aos envenenamentos em massa limitando arbitrariamente os testes de nível de chumbo, retirando e, possivelmente, manipulando resultados de testes, negando tratamento apropriado a crianças e adultos, e tentando silenciar pais, vizinhos das instalações suspeitas e ativistas.

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