Jack Guez/AFP
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Contando com vacinação, Israel não terá novas restrições mesmo com aumento de casos

Novo governo se mantém firme, expressando fé que a alta taxa de vacinação do país está protegendo as pessoas dos piores efeitos da variante Delta

Steve Hendrix / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 08h00

JERUSALEM - Enquanto a variante Delta do coronavírus força os países ao redor do mundo a restabelecer as restrições, o novo governo de Israel se mantém firme, expressando fé que a alta taxa de vacinação do país está protegendo as pessoas dos piores efeitos da variante. O número de casos positivos está aumentando, mas poucas pessoas estão ficando gravemente doentes.

As autoridades decidiram no domingo à noite que um aumento nos casos positivos não justificava um retorno ao bloqueio ou restrições significativas, além de restabelecer um decreto que obriga o uso de máscaras em lugares públicos, que havia sido revogado duas semanas atrás.

"Na semana passada, houve um aumento no número de pessoas com teste positivo em Israel, mas não houve um aumento complementar no número de pessoas hospitalizadas", disse o primeiro-ministro Naftali Bennett após uma reunião do gabinete com membros do governo, segundo o jornal Maariv. “Mas precisamos saber, a variante Delta infecta pessoas vacinadas.”

Bennett foi um crítico frequente da resposta de seu antecessor, Binyamin Netanyahu. Ele disse que seu governo se concentrará, por enquanto, na expansão de sua taxa de vacinação, já líder mundial, e no reforço da fiscalização da quarentena. Um novo “czar” reforçará os testes e a fiscalização no Aeroporto Ben Gurion, o principal portal internacional de Israel. Os viajantes que violarem a proibição de visitas a “países vermelhos”, onde as variantes estão em alta, enfrentarão uma multa de US$ 1.500.

“Nossa atitude é simples: proteção máxima para os cidadãos de Israel com o mínimo de danos à rotina e à economia israelense. Máscaras em vez de restrições. Vacinas em vez de bloqueios”, disse Bennett, que emitiu um apelo na segunda-feira para que os jovens tomem suas vacinas antes que partes do estoque de vacinas de Israel comecem a expirar.

Israel já vacinou quase 59% de sua população com ambas as vacinas da Pfizer-BioNTech e Moderna, e 62% com pelo menos uma dose. Seu ritmo fez com que fosse um dos primeiros países a vacinar para se livrar da maioria das restrições relacionadas à covid. Como resultado, restaurantes, praias e sinagogas ficaram lotados em níveis pré-pandêmicos nas últimas semanas.

Agora o país é um dos primeiros a lutar contra um surto da variante indiana do coronavírus, mais infecciosa, em meio a uma população em sua maioria vacinada, situação que outras nações que emergem da pandemia pós-vacinação também devem enfrentar.

Autoridades de saúde pública dizem que a taxa de vacinação, embora não bloqueie totalmente a variante Delta, ainda está protegendo a população de seus piores efeitos. Isso torna esse pico muito diferente das ondas anteriores que ameaçavam sobrecarregar o sistema de saúde de Israel, dizem eles.

“Alcançamos um nível de imunidade em Israel que também fornece proteção cruzada contra a variante Delta e, por esse motivo, o vírus não se espalha tão rapidamente, não atinge a população mais vulnerável e não causa muitas hospitalizações”, disse Yoram Weiss, diretor do Centro Médico da Universidade Hadassah de Jerusalém, na segunda-feira. “A vacinação está fazendo toda a diferença.”

O Hadassah tem sido um termômetro do coronavírus e o maior centro da covid-19 no país, tratando mais de 4.500 pacientes durante a pandemia. Mas uma semana após o início do aumento dos casos da variante Delta, as enfermarias do hospital permanecem vazias.

“Neste ponto, ainda não tenho um único paciente”, disse Weiss. “Sim, precisamos permanecer vigilantes. Mas precisamos entender que, desta vez, enfrentamos o vírus em uma situação diferente da anterior. ”

Como as viagens globais aumentaram nas últimas semanas, a variante, que parece ser mais transmissível do que outras formas do vírus, está causando o aumento dos casos de coronavírus em vários países. Israel começou a ver um aumento quando 26 novos casos surgiram em 14 de junho. Esse número aumentou para 230 na sexta-feira passada.

O aumento levou Israel a interromper sua reabertura gradual ao turismo. Funcionários adiaram o levantamento da proibição de 15 meses a visitantes estrangeiros ao país de 1º de julho para 1º de agosto. Viajantes sozinhos e famílias podem entrar no país apenas com permissão especial e são obrigados a ficar em quarentena por pelo menos 10 dias, a menos que um teste de anticorpos mostre que eles estão protegidos contra o vírus.

Passeios em grupo - com cada participante mostrando prova de vacinação e testes de coronavírus negativos - já começaram com visitantes que geralmente passam pelos locais religiosos de Israel na primavera e no verão (no norte). E a enorme parada anual do Orgulho LGBT de Tel-Aviv, cancelada no ano passado, atraiu mais de 100 mil pessoas na sexta-feira, segundo relatos da mídia.

O aumento causado pela variante Delta foi amplamente atribuído a dois surtos em escolas. A vacina foi disponibilizada para residentes israelenses com menos de 16 anos apenas nas últimas semanas, e os jovens continuam sendo um dos maiores grupos de não vacinados da população.

Bennett, em uma carta aberta intitulada “Caros jovens”, pediu aos menores para tomarem suas primeiras vacinas em 11 dias, o que permitiria que a segunda dose fosse tomada antes que as vacinas comecem a expirar.

“Também tenho quatro filhos da idade de vocês, e eles também querem aproveitar o verão”, disse ele. “Não queremos impor restrições a ninguém, nem a festas, a caminhadas, a nada - nada.”

Os médicos dizem que o número de infecções é provavelmente muito maior do que os testes mostram, visto que muitas pessoas que têm alguma proteção contra a doença - incluindo pessoas vacinadas e possivelmente mais de um milhão que se recuperaram de infecções anteriores - estão lutando contra o vírus sem nunca apresentarem sintomas. Testes em amostras de esgoto na cidade costeira de Ashkelon sugerem que um número muito maior de residentes têm a variante Delta em seus corpos do que tiveram resultados positivos.

“Provavelmente temos 65% a 70% das pessoas com algum nível de anticorpos para protegê-las”, disse Weiss. “A maioria das pessoas nem mesmo sabe que tem.”

 

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