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Contando os mortos

Havia ao menos um clima de desgraça e vergonha misturado à esperança de que aquela imagem pudesse mudar o mundo

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2016 | 05h00

Quando acordamos, no dia 2 de setembro de 2015, e nos deparamos na tela do computador com a imagem brutal de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos encontrado morto em uma praia da Turquia, parecia que havíamos chegado ao fundo do poço. 

Uma das primeiras a compartilhar a imagem nas redes sociais foi Liz Sly, chefe da sucursal do Washington Post no Oriente Médio, enviada para a cobertura da guerra na Síria: “Aos que a acusaram de violar a dignidade humana ao exibir a foto do menino sírio morto em uma praia da Turquia, duas sugestões: leia sobre a Síria e tente encontrar ali alguma dignidade.”

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A imagem rapidamente se espalhou nas redes sociais. “Se essa imagem poderosa de uma criança síria morta em uma praia não fizer a Europa mudar sua atitude em relação refugiados, o que fará?”, tuitou Peter Bouckaert, da Human Rights Watch. “Ofensivo são crianças mortas arrastadas para as nossas praias, quando estas mortes poderiam ser prevenidas pela ação da União Europeia.”

Havia ao menos um clima de desgraça e vergonha misturado à esperança de que aquela imagem pudesse mudar o mundo.

Um ano depois, o saldo é de 423 crianças mortas na travessia do Mediterrâneo em busca refúgio na Europa desde Aylan e seu irmão de cinco anos, também morto em algum ponto do mar entre Bodrum, na Turquia, e a ilha de Kos, na Grécia, assim como sua mãe. A número é da organização Save The Children. A ONU estima que sejam mais: duas crianças, em média, por dia teriam morrido na travessia do mar desde o ano passado.

No total, mais de 4 mil pessoas morreram tentando chegar à Grécia ou à Itália, os dois principais portos de entrada dos refugiados na Europa, nos últimos doze meses.

A imagem de Aylan nas areias de Bodrum é da tragédia visível. Há outra, invisível.

Mais de 1.250 homens, mulheres e crianças estão enterrados sem identificação, apontou um levantamento feito pela BBC, em 70 cemitérios espalhados por cidades costeiras na Turquia, na Grécia e na Itália. Suas famílias jamais saberão onde estão. Os corpos resgatados do mar são levados para diferentes cemitérios, dependendo de onde são encontrados e da disponibilidade de espaço.

s números dessa tragédia sem rosto ou nome são maiores. Relatório do Mediterranean Missing Project, um projeto de pesquisa que envolve o Conselho Social e Econômico do Reino Unido, as Universidades de York e Londres, e a Organização Internacional para Migração e foi formado para investigar as mortes no Mediterrâneo entre setembro de 2015 e 2016, apontou que a maioria dos mais de 3,8 mil refugiados e migrantes mortos no ano passado no mar ao tentar chegar à Europa ainda não foi identificada. Viraram estatística.

Muitos foram encontrados e enterrados por pescadores ao longo da orla, sem que suas famílias jamais soubessem. Outros, ainda, foram encontrados em estado de decomposição avançado, que dificulta o processo de identificação. 

Na semana passada, a Guarda Costeira italiana recuperou 217 corpos do mar de um naufrágio ocorrido na rota entre Líbia e Itália, no dia 18 de abril do ano passado. Pelos relatos de 22 pessoas que estavam a bordo, os únicos sobreviventes da tragédia, estima-se que o número de mortos chegue a 900 – o maior desastre no mar da costa italiana.

Os corpos encontrados esta semana somam-se a 169 que já haviam sido resgatados e ainda estão em processo de identificação em uma base da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Melilli, próxima à cidade italiana costeira de Siracusa. Cerca de 150 integrantes de Marinha, Bombeiros, Cruz Vermelha italiana e especialistas em medicina forense da Universidade de Milão trabalham na identificação dos corpos.

“Por trás da catástrofe visível de naufrágios e mortes no Mediterrâneo há a catástrofe dos corpos encontrados sem que seja feito o suficiente para identificá-los”, diz o autor do relatório do Mediterranean Missing Project, Simon Robins, da Universidade de York.

E há, ainda, os desaparecidos. Muitos corpos nunca são encontrados. Sua ausência, que impossibilita a despedida e um desfecho para a tragédia, implica em sofrimento adicional aos que perdem pessoas queridas na travessia e aumentam as chances de traumas psicológicos. Para eles, é ainda mais difícil aceitar a perda.

*ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

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