Ali Hassan/AFP
Ali Hassan/AFP

Contatos iniciais baixam expectativa de avanço em negociações sobre o Irã

Encontro na Turquia, o segundo em dois meses entre o governo iraniano e o grupo P5+1, tem agora a ambição limitada de concluir um cronograma para as futuras rodadas de negociação sobre o programa de enriquecimento de urânio de Teerã

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

Embora nenhuma das partes tenha divulgado o resultado da negociação de ontem entre o grupo conhecido como P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) e o Irã, fontes ocidentais informaram não ter havido avanço na direção de uma solução para o impasse que envolve o programa nuclear iraniano.

"Eles falaram muito, mas as posições não mudaram. O certo é dizer que a reunião foi inconclusiva", afirmou um diplomata, sob a condição de anonimato, à Agência France Presse. A fonte referia-se ao encontro de aproximadamente uma hora e meia entre a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, e o principal negociador nuclear iraniano, Said Jalili. Os dois encontraram-se separadamente como parte das negociações em Istambul entre o Irã e o P5+1, cuja delegação foi liderada por Catherine.

Os iranianos teriam tentado impor duas precondições para iniciar negociações sobre uma troca de combustível nuclear. O negociador iraniano teria insistido no reconhecimento do direito de seu país de enriquecer urânio e no levantamento das sanções internacionais contra Teerã. Em nome do P5+1, Catherine recusou as precondições.

Com ambições limitadas, a meta seria agora chegar ao fim da rodada de discussões hoje com um calendário de novas reuniões que permita assegurar a continuidade do diálogo - que estava interrompido havia mais de um ano.

Um segundo desafio seria promover uma reunião bilateral entre o Irã e os EUA. "Nós queremos lançar um processo sério e concreto que aborde o fundo dos problemas que abrangem o programa nuclear iraniano", afirmou o porta-voz da diplomacia americana Philip Crowley.

Na quinta-feira, o representante do governo iraniano na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Ali Asghar Soltanieh, afirmou em Moscou que o país se dispõe a negociar um acordo sobre a troca de urânio não enriquecido por material enriquecido - num grau de até 20% de pureza, suficiente para produzir eletricidade e alimentar reatores de pesquisa, mas não para a produção de armas.

Um acordo com termos semelhantes foi negociado em maio de 2010 com a intermediação do Brasil e da Turquia. O acordo, festejado na época pela diplomacia brasileira, previa a entrega à Turquia de 1,2 tonelada de urânio bruto que seria trocado por combustível, cujo processo de enriquecimento seria feito no exterior. A oferta não foi aceita pelo P5+1.

Antes do começo da rodada de discussões, entretanto, Soltanieh descartou a hipótese de o programa nuclear iraniano suspender totalmente o enriquecimento, considerado "um direito fundamental". "As resoluções da ONU não nos incitarão em nenhuma hipótese a interromper o processo de enriquecimento de urânio", garantiu Soltanieh, segundo a agência oficial Irna.

O diplomata iraniano reafirmou que a decisão não significa que o país busque produzir armas nucleares de destruição em massa. Procurada pelo Estado, a AIEA não quis se pronunciar.

Por seu lado, em entrevista ao jornal israelense Haaretz, a chanceler da França, Michelle Alliot-Marie, também mostrou disposição de não ceder e reforçou que "uma arma nuclear iraniana constitui uma ameaça maior para a comunidade internacional". / COM AFP e REUTERS

SANÇÕES DA ONU VIGENTES

Resolução 1.737 (2006)

Veta a importação de certos componentes para o programa nuclear, lista suspeitos e cria comitê para avaliar a questão

Resolução 1.747 (2007)

Proíbe a exportação de armas iranianas e congela bens de 28 empresas e pessoas envolvidas no

programa nuclear

Resolução 1.835 (2008)

Veta exportação ao Irã de toda tecnologia nuclear que possa ter fins militares e exorta a

inspeção de navios iranianos

Resolução 1.929 (2010)

Expande restrições às atividades militares, financeiras e o livre trânsito de autoridades

ligadas à Guarda Revolucionária e ao programa nuclear

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