Contendo os extremistas árabes

O desafio enfrentado pelos EUA está em não se ater ao espírito ecumênico, e sim[br]escolher seus aliados e fortificar o centro político contra as forças da intolerância

Ray Takeih, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Enquanto a comunidade internacional tenta emancipar a Líbia da sangrenta tirania de Muamar Kadafi, uma sombra mais preocupante - a do extremismo - ronda os bastidores da primavera árabe. O islamismo é praticamente uma relíquia do século 20, uma desacreditada ortodoxia de limitada influência entre as massas árabes.

A história mostrou, no entanto, que partidos bem organizados de apelo circunscrito podem, independentemente disto, se tornar mais influentes ao explorar a confusão dos períodos de transição e as divisões dentro do campo democrático. O problema é agravado pela tentação, verificada entre muitos ocidentais, de buscar um diálogo com as alas "políticas" de organizações militantes como o Hezbollah ou com elementos "moderados" de partidos islâmicos. Hoje, o desafio enfrentado por Washington está em não se ater a nenhum tipo de espírito ecumênico, e sim escolher seus aliados e fortificar o centro político contra as forças da intolerância.

Muitos no Ocidente supõem que depois que os partidos islâmicos forem integrados à ordem política, os fardos da governança - as concessões mútuas, a construção de coalizões e os cuidados com o eleitorado - vão inevitavelmente levá-los a abrir mão de seu passado ideológico. Conceitos liberais como este prestam um desserviço à Irmandade Muçulmana e seus muitos rebentos, denegrindo seu compromisso com o próprio dogma.

A ideologia dos islamitas toma como base a noção de que a religião é um abrangente sistema de crenças, ao mesmo tempo eterno e transnacional.

A moderação demonstrada por tais grupos nas últimas décadas em lugares como o Egito não passou de um pragmatismo nascido da necessidade, e não de uma revolução intelectual. Livres das amarras dos Estados policiais árabes, grupos deste tipo têm liberdade para avançar sua pauta antiliberal e antiocidental.

A promessa das associações islâmicas se assemelha à dos partidos comunistas, que tanto fizeram para tirar dos eixos a era liberal na Europa da década de 20. Como os islâmicos, os comunistas nunca atraíram muito apoio popular, mas usaram sua presença parlamentar e paramilitar para sabotar as perspectivas das democracias ainda frágeis; Alemanha e Itália são exemplos disto. Com o tempo, sua devoção à União Soviética e sua subordinação dos interesses nacionais à causa do proletariado global fez muito para facilitar a ascensão do fascismo.

Partidos islâmicos certamente ameaçarão de maneira semelhante uma ordem democrática inexperiente. É muito provável que seus representantes eleitos pressionem pela adoção de uma legislação discriminatória; seus líderes religiosos vão estimular as paixões contra os grupos de defesa dos direitos da mulher e as organizações não governamentais; e suas milícias ameaçarão políticos seculares e líderes da sociedade civil que não se enquadrem no seu modelo ideal.

Agitações deste tipo podem não levar ao poder absoluto, mas mesmo assim podem servir de oportunidade para que militares nacionais tomem o poder para pôr fim ao interlúdio democrático em nome da garantia da estabilidade e da ordem.

A resposta, portanto, não é excluir os partidos islâmicos da participação política. Um sistema genuinamente democrático teria de incluir todas as vozes dissonantes, por mais mal-intencionadas e radicais que sejam.

O desafio de Washington é garantir que a transição política da região não culmine na tomada do poder por outra camarilha militar. Assim, os EUA e seus aliados precisam fortalecer o centro político e os regimes democráticos que estão assumindo o poder em meio a uma crise econômica sem contar com os benefícios das instituições maduras.

Um grande pacote de auxílio econômico para países como Egito e Tunísia os aproximaria dos EUA, permitindo que Washington mostre claramente que todo tipo de extremismo será motivo de uma interrupção no auxílio.

Mesmo numa era de restrições orçamentárias, Washington pode conseguir arrecadar somas substanciais ao canalizar o auxílio militar para objetivos civis e ao colaborar com a União Europeia, com o Banco Mundial e com o Fundo Monetário Internacional. Os EUA podem não ser capazes de determinar o desfecho dos levantes no Oriente Médio, mas o país ainda pode impor condições e oferecer incentivos que reduzam o apelo e a potência dos atores militantes.

Além de medidas como estas, Washington tem a obrigação moral da parcialidade política. Durante a Guerra Fria, o país não se manteve passivo enquanto as forças da democracia combatiam os partidos comunistas que buscaram explorar os deslocamentos posteriores à 2.ª Guerra para fazer avançar seus objetivos sinistros.

Muitas vezes os EUA ajudaram ativa ou secretamente as forças não comunistas de toda a Europa, garantindo a derrota dos poderosos partidos comunistas da França e da Itália. No contexto do Oriente Médio atual, isto significa ficar ao lado dos partidos seculares emergentes e dos jovens ativistas enquanto estes buscam reinventar a política da região e finalmente trazer o Oriente Médio para o século 21.

A ideia de que as intervenções americanas no mundo árabe fizeram dos EUA um agente tóxico que deveria se manter afastado é uma presunção da intelligentsia ocidental - uma ideia rejeitada pelos manifestantes árabes, cuja maioria não vociferou gritos de guerra antiamericanos.

A primavera do mundo árabe proporciona aos EUA uma oportunidade de recuperar seus valores e redimir seus interesses. Os EUA estão envolvidos no futuro do Oriente Médio e não devem se furtar ao cultivo dos nascentes movimentos democráticos que varrem a região. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É BOLSISTA SÊNIOR DO CONSELHO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

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