Isabel Hilton*, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 00h00

O regime militar de Mianmá cometeu muitos erros de cálculo nos últimos tempos. Deixando de lado a redução à penúria de um dos países mais ricos da Ásia, a decisão tomada em agosto de quintuplicar os preços da gasolina foi um erro de julgamento tão grosseiro quanto o subseqüente tratamento dado aos protestos provocados pela medida. Se um regime detestado pretende manter-se por meio da repressão, precisa esmagar os protestos rapidamente. Como fracassou em fazer isso, o regime agora enfrenta a participação vigorosa do último setor relativamente intocado e organizado do país fora os militares - a Igreja Budista, que deu seu grande peso moral a um esforço para acabar com o regime militar.Como observou o embaixador britânico em Mianmá, estamos agora em território desconhecido. Por mais tentador que pareça para a junta militar, talvez seja tarde demais para ela levar adiante uma sangrenta repressão em massa, como fez impunemente em 1988, quando 3 mil pessoas foram mortas. A questão é de que forma convencer o regime de que, agora, o preço dessa repressão seria alto demais.Mianmá já se mostrou indiferente à pressão internacional. Tem sobrevivido como um pária internacional há anos, e as sanções impostas pelos EUA não têm dado resultados. Os pedidos para a libertação da líder da Liga Nacional pela Democracia, Aung San Suu Kyi, foram ignorados. Por que, então, seria diferente desta vez?A principal diferença está no papel da China. O maior parceiro comercial de Mianmá e principal protetor de seu regime. Até agora, a China, com o apoio da Rússia, obstruiu tentativas internacionais para enquadrar o regime. Há nove meses, a China e Rússia vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que queria dar poderes para o secretário-geral da organização negociar com o regime birmanês, e a China arruinou três tentativas diplomáticas asiáticas (da Indonésia, Filipinas e Malásia) de obter a libertação de Suu Kyi, o que provocou criticas incomumente diretas a Pequim vindas da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean).A China tem respaldado os militares birmaneses com generoso apoio: a ajuda chinesa construiu infra-estrutura de transportes e barragens; investimentos chineses deram a Pequim uma participação em setores-chave da economia de Mianmá; a imigração chinesa criou grandes populações chinesas nesse país, e o apoio chinês tornou ineficazes as sanções americanas contra o regime. Por que, então, a China agora está sendo citada como uma influência capaz de coibir o regime de Mianmá?A China agora enfrenta o fato de que o perfil diplomático de destaque que vem junto com seu maior poder global a expõe a novas pressões para manter padrões internacionais. Assim, se o país quiser continuar a vender sua ascensão ao status de superpotência global não ameaçadora, parcerias estreitas com regimes condenáveis podem produzir um revés indesejável.''''GENOCÍDIO OLÍMPICO''''A intransigência que a China mostrou anteriormente para com Darfur dissolveu-se quando os ativistas vincularam os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim ao apoio chinês ao regime sudanês, produzindo a expressão ''''Genocídio Olímpico''''. De repente, a China achou conveniente mandar um enviado ao Sudão e desempenhar um papel mais construtivo nos esforços multilaterais para solucionar a crise de Darfur.Uma pressão semelhante está se formando em relação a Mianmá. Para Pequim, a visão de dezenas de milhares de cidadãos em protestos pacíficos nas ruas liderados por monges budistas é quase um pesadelo, já que a China tem suas próprias combinações potencialmente explosivas de dissidência civil e religiosa: os monges budistas no Tibete, os muçulmanos em Xinjiang e até os seguidores da seita Falun Gong em Pequim - todos eles alegando autoridade moral para desafiar uma autocracia corrupta e que busca apenas seus próprios interesses.A visão das manifestações cívicas de massa em favor de reformas políticas traz à lembrança o que ocorreu na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989. Um banho de sangue em Mianmá, dada a estreita identificação da China com a ditadura, traria ecos do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, justamente no momento em que o governo chinês se está preparando para a Olimpíada do próximo ano. Para a China, a negociação é infinitamente preferível ao derramamento de sangue e à instabilidade que pode resultar disso. A dificuldade é que a reação inicial inepta do regime birmanês complicou ambas as opções - a repressão total agora custaria muito caro e o momento para negociar já pode ter passado. Agora, os cartazes nas ruas exigem nada menos do que a saída dos militares do poder.Tal desfecho continua improvável, pois, nas últimas décadas, o regime desmantelou quaisquer estruturas alternativas de poder. A organização mais intacta continua sendo o partido da opositora mais odiada pelo regime, Suu Kyi, que seria a última escolha da junta militar como interlocutora. O que a junta teme, com razão, é que uma libertação de Suu Kyi estimule ainda mais a demanda popular pela queda do regime.Mas este é um sapo que a junta terá de engolir. Não existe acordo de longo prazo sem Suu Kyi, e é do interesse de todos os envolvidos, até dos militares, negociar uma transição ordenada. Se as metas da China são proteger os investimentos e a estabilidade regional, está na hora de compreender que é mais fácil conseguir essas coisas não amparando uma ditadura instável, mas apoiando uma transição pacífica para um governo constitucional. Tradução de Maria de Lourdes Botelho*Isabel Hilton é colunista do ''''Guardian''''

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