Conter e coagir o Irã

Explorar as divisões internas da República Islâmica será mais eficaz do que um ataque

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h04

Em 1980, Saddam Hussein invadiu o Irã. Ele calculou que encontraria os iranianos divididos demais pela revolução, que completava um ano, para oferecer resistência. Calculou mal: os iranianos estavam motivados, a última oposição interna à teocracia do aiatolá Khomeini havia sido esmagada, e o Irã ergueu-se unido contra o inimigo.

Não há necessidade de ir muito longe para prever como Teerã responderia se Israel ou os EUA bombardeassem o país na tentativa de deter seu programa nuclear. A sociedade iraniana, hoje uma mescla inflamável de depressão, divisão e disfunção - supervisionada por um líder supremo em conflito com seu inconstante presidente - se uniria enfurecida.

Esta reação, segundo alertou o secretário da Defesa americano, Leon Panetta, poderia ter "consequências indesejáveis". Entre elas, uma tábua de salvação para a República Islâmica, hoje enfraquecida, que fecharia o país por uma geração; um acentuado aumento do número de americanos mortos nos vizinhos Iraque e Afeganistão; a retaliação direta ou indireta (através do Hezbollah) contra Israel; uma onda de radicalização no momento exato em que a ideologia jihadista parece estar se esgotando e a primavera árabe se encontra num momento delicado; um golpe para a economia global pelo aumento vertiginoso dos preços do petróleo; um renascimento do apelo regional hoje enfraquecido na medida em que o Irã se tornaria mais um país muçulmano enfrentando bombas ocidentais; e o aumento do terrorismo.

Não é uma proposta atraente. Mas tampouco é o Irã com a bomba. A crise nuclear iraniana é recorrente. Graham Allison, professor de Harvard e principal estrategista da área de segurança, a comparou a "uma crise dos mísseis de Cuba em câmera lenta".

Como vêm fazendo há anos, líderes israelenses alertam que o tempo para se evitar um ataque militar está se esgotando; os candidatos republicanos à presidência empenham-se em promover uma belicosidade total contra Teerã; o Irã continua em sua confusa tergiversação; e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) encontra evidências confiáveis de que o governo busca obter a bomba.

Projetos alucinados como a "Lei para a Redução da Ameaça Iraniana" de inspiração orwelliana, que está no Congresso e tornaria ilegal o contato com autoridades iranianas, só fomentam uma perigosa exacerbação do nacionalismo.

É preciso levar em conta quatro elementos. O primeiro é que o Irã não está brincando com gatilhos e detonadores nucleares de alta precisão porque quer gerar eletricidade. O que ele quer é capacidade nuclear para fins militares comum na região (ver Israel, Paquistão, Índia e Rússia).

Vírus. Em segundo lugar, a redução do ritmo do seu progresso rumo ao objetivo declarado, muito mais lento do que o do Paquistão, tem a ver não apenas com contramedidas eficientes (o vírus Stuxnet e cientistas mortos em atentados), mas também com uma profunda inércia e ambiguidade; o líder supremo, Ali Khamenei, é o "guardião da Revolução" e enquanto tal atua num campo conservador em que será julgado pela sobrevivência da República Islâmica.

O programa nuclear é o cimento nacionalista para uma sociedade frágil, mesmo que não vá a parte alguma.

Em terceiro, o Irã, abalado pelo levante de 2009, uma nação jovem com um regime revolucionário ultrapassado, está inquieto: uma demanda frenética por moedas fortes empurrou a cotação não oficial do dólar muito acima da oficial, os preços dos gêneros de primeira necessidade sobem sem parar, e as tensões entre a estrutura da República Islâmica (Khamenei) e seu presidente eleito de maneira fraudulenta, Mahmoud Ahmadinejad, são virulentas.

Em quarto lugar, o grande derrotado da primavera árabe é o Irã, pois os levantes reivindicam o chamado à responsabilidade dos governantes e a representação para o povo, exatamente o que a Revolução Islâmica negou a seus autores depois de prometer a liberdade. O modelo iraniano não inspira ninguém.

Em suma, os líderes da República Islâmica, mas não o povo iraniano, são os inimigos do Ocidente. Mas o país está dividido e não quer a guerra.

Estas circunstâncias dão aos EUA e a Israel espaço para uma ação efetiva, na medida em que resistirem a um temerário ataque. O objetivo seria intensificar as divisões internas do Irã e impedir que o país se una numa determinação furiosa.

Em 1946, quando escreveu o Longo Telegrama que deu origem à política de contenção, George Kennan via uma União Soviética que era também um inimigo ideológico do Ocidente. Ele julgou, corretamente, que ela seria contida por meio de uma política firme, como ocorreu mesmo depois que aperfeiçoou a bomba.

O Irã pode ser detido com medidas que não precisam chegar à ação militar. É preciso uma política de contenção e cerceamento. Contenção do Irã por meio do aumento de defesas de Israel e no Golfo, processo já em andamento. O cerceamento implica cercá-lo em sua atual ambiguidade nuclear por um processo de corrosão (outro Stuxnet, etc.), medidas que impeçam acesso a moedas fortes, e, como último recurso, uma "quarentena" semelhante à adotada por John Kennedy contra Cuba na crise dos mísseis. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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