Contestadores condicionam reunião do G-8

Os "contestadores", desde Seattle à Gênova , são irritantes, são brutais, são provocadores, destruidores. Mas eles têm pelo menos um talento: manejam os "símbolos" com a proficiência dos grandes profissionais. Para eles, esses "rituais solenes" dos "países avançados" são transformados em "shows" brilhantes, maliciosos, às vezes trágicos, coloridos e cujas imagens violentas se gravam, como outrora, em um pergaminho com letras de um alfabeto misterioso (misterioso por enquanto, mas a ser decifrado mais tarde), ou antes como tatuagens "enigmáticas" na pele do mundo. E, nesta ordem - a do teatro, da eloquência, da imagem - é preciso convir que esses revoltados, em em primeiro lugar os Tute Bianche (Macacões Brancos), sobrepujam os líderes dos oito países dominantes. De um lado, oito dignos senhores em traje completo - jaqueta herdada da sociedade burguesa "victoriana" do século XIX, em cores que vão do cinza ao preto, criativos como os protocolos e joviais como convivas especiais. Do outro lado, os outros, hirsutos, brincalhões, dançantes, acrobáticos, gozadores, pintados de várias cores e dotados de uma audácia louca e, apesar de seu caos aparente, capazes de uma disciplina de ferro, como o atestam os campos de treinamento, os uniformes de combate mais "indignados". A manipulação dos símbolos vai ainda mais longe: apesar das imensas precauções adotadas pela Itália (e, com razão, em vista do perigo), os militantes conseguiram fazer da geografia da cidade de Gênova um microcosmo do universo real. O que vemos? Um muro (não de cimento armado, comno o de Berlim, mas de grades de aço) para proteger o "perímetro vermelho", onde os militantes não podem penetrar. Portanto, os "poderosos" se encerram na prisão, enquanto os outros estão "ao largo, à solta, em liberdade. E, para completar o "simbolismo", foi preciso camuflar os "chefes" em um navio de luxo. Não se poderia confessar com mais clareza: os "oito" foram obrigados a refugiar-se "fora do mundo", "fora da terra", numa "terra de ninguém", no verdadeiro sentido da palavra. Na água. E nem mesmo numa ilha. Simplesmente numa embarcação. Com exceção do "simbólico", será que os contestadores marcaram pontos desde Seattle, Davos, Quebec, Gotemburgo ou Porto Alegre? E aqui não falamos mais da pequeníssima minoria (1% ou 2% apenas) de "quebradores", de extremistas exaltados, mas de um conjunto de organizações mobilizadas contra as "reuniões de cúpula" - isto é, todos esses jovens (ou adultos) sérios, os católicos, os membros da Attac, do Greenpeace, etc.. A resposta é "sim". Eles "dobraram" estas reuniões (às vezes elas foram canceladas, como em Seattle). Consultando a ordem do dia da reunião de cúpula de Gênova, descobrimos que ela foi determinada, não pelo Eliseu, ou a Casa branca, ou o Downing Street Nº 10, mas pelos manifestantes. Silvio Berlusconi, que não é um antiglobalista muito convencido, admitiu: "Discutiremos exatamente alguns temas a respeito dos quais algumas pessoas querem se manifestar". O jornal "Figaro", que não é muito esquerdista, confirma: "Os líderes dos ricos começam a realizar o divórcio crescente com suas opiniões públicas. As prioridades que eles estabeleceram são as dos manifestantes". A França vai ainda mais longe neste exercício que consiste em ser "mais realista do que o rei". A França se safa muito bem: "Não existe oposição entre os que se manifestam e os que se reúnem". Maravilha da palavra: Vamos nos abraçar e dançar juntos!... A porta-voz de Jacques Chirac no Eliseu, Catherine Colonna, criticou por sua vez "uma globalização sem controle, às vezes brutal e, numa palavra, cega". Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores da França encontrou uma maneira engraçada de legitimar o G-8: "É preciso dialogar com eles (os contestadores). Mas eles não têm uma legitimidade superior aos governantes". Na realidade, basta folhear a agenda do G-8, para se render à evidência. Serão discutidos os temas da luta contra a pobreza, da segurança alimentar, das epidemias nos paises pobres (aids, malária, etc,), dos migrantes, dos sem documentos, etc. Até parece que os organizadores do G-8 roubaram a agenda do bolso dos contestadores... Mais ainda: desde que começaram a existir estas reuniões do G-6, depois G-7 e mais tarde, G-8, alguns estão espantados de que o destino do universo, de bilhões de seres humanos, seja regulado apenas pelos chefes de alguns países ricos sem que outros paises tenham voz nem vez (os países "emergentes", isto é aqueles que começam e surgir no cenário mundial, e sobretudo os "países emergidos", como são amargamente chamadas estas imensas populações cujo PIB não é igual ao de um rico norte-americano, inglês ou alemão). Ora, eis que, de repente , os "G-8" descobrem que de fato existem outros países iguais a eles. Um milagre. Eles convidam um punhadinho de dirigentes dos "pobres" (Mali, Bangladesh) e lhes permitem dizer uma "palavrinha" no fórum dos ricos. Outro exemplo: há anos, a Rússia está ensanguentando a Chechênia. Há anos, os países dos "direitos do homem" dizem que sangrar um povo não é uma coisa gentil. Há anos, Putin ouve com ar sério essas "Excelências" que o aborrecem um pouco, mas depois passam a falar de coisas sérias (comércio, petróleo, finanças, etc,)... De resto, a mesma coisa acontece no caso da China e do Tibete.... Ora, em Gênova, Putin vai encontrar uma supresa: o jornalista russo Andrei Babinski, horrorizado pelo que viu na Chechênia, lança um apelo aos dirigentes do G-8, sob o título: "A reunião de cúpula do silêncio". Um apelo indignado contra o Kremlin. E este apelo é imediatamente aprovado pelos responsáveis italianos e, sobretudo, por altas personalidades, como Elie Wiesel, Ismail Kadaré, Elena Bonner (mulher de Andrei Sakharov), Alain Tourraine, Jean-Luc Godard, etc. Assim, a reunião de cupúpula dos ricos, dos dominantes, dos que ditam ao mundo a sua lei, está, de agora em diante, gangrenada, desviada, derivada para os campos que estão exatamente no lado oposto das "vontades mercantis" do G-8 (este G-8 no qual aliás não se podem distinguir os governos de esquerda ou de direita): mais justiça, mais salvaguardas contra a globalização cruel, contra um liberalismo de selvagens, mais respeito pelos migrantes, mais respeito pelos sem documentos, compaixão pelos miseráveis, generosidade, partilha, etc. Em suma, aquilo que dizem, com menos estardalhaço e brutalidade que os "Tute Bianche", mas com mais seriedade e mais dignidade, os inúmeros católicos e religiosos que ajudaram a cercar em Gênova os "grandes da terra": "Deus está do lado dos pobres".

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