Imagem Mac Margolis
Colunista
Mac Margolis
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Conto de duas petrolíferas

Quando Enrique Peña Nieto tomou posse no México, em 2012, enfrentou um problema do tamanho do Golfo do México. Seu país, outrora potência petrolífera, via cair, ano a ano, sua produção de petróleo. Com poços velhos em fase de decadência, a estatal Pemex descapitalizada e investidores melindrados pelas regras protecionistas, o presidente arriscava iniciar o mandato de tanque vazio.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h02

Para não parar de vez, Peña Nieto cometeu uma heresia: propôs uma reforma radical do setor de energia. Para se inspirar, olhou para o Brasil e para a reestruturação da Petrobrás. Ou melhor, a Petrobrás dos anos 90.

Digamos que foi uma volta ao futuro, pois a Petrobrás atual, a soberana do pré-sal, amuralhada pelo nacionalismo, prisioneira dos preços camaradas e pauperizada a cada tanque abastecido, tornou-se um modelo. A Petrobrás da era Lula é o modelo de tudo o que os mexicanos queriam evitar.

Esqueça, no momento, a bacia de lama em que a mais conhecida e outrora melhor multinacional brasileira se atolou nos últimos tempos. Deixe que Justiça e as CPIs esmiúcem os descaminhos da empresa, que ensaiam convertê-la em caixa eletrônico para bancar campanhas de amigos do poder.

O desafio para o Brasil, que hoje segue para as urnas, não é apenas desvendar o que se passou à meia luz na mais importante torre empresarial do País. O macete é enxergar o que ocorre à luz do dia no Planalto Central.

Populismo energético misturado com o nacionalismo de recursos naturais ainda é o aperitivo preferido em muitos palácios da América Latina. Pouco afeito à privatização e desconfiado do mercado aberto, o presidente Lula nunca escondeu seu incômodo com as reformas do governo anterior.

Sim, a produção nacional disparara após a quebra do monopólio, um estalo político que abriu os campos de petróleo para a exploração privada e forçou a Petrobrás a concorrer com as melhores do mundo. Uma década depois, o Brasil, pela primeira vez, beirava a autossuficiência em petróleo. Em vez de quebrar, a Petrobrás se fortaleceu.

Houve a descoberta do pré-sal, que foi a deixa perfeita para o governo Lula voltar ao eixo nacionalista. Afinal, com o pré-sal à mão, por que entregar de bandeja a bonança ao mercado ou, pasmem, aos estrangeiros? Foram-se as concessões. Entrou o regime de partilha, com a Petrobrás novamente encastelada - e sobrecarregada. A empresa brasileira, que em 2010 perdia apenas para a Exxon em valor de mercado (US$223 bilhões), hoje amarga a maior dívida entre as petrolíferas da bolsa. Os mexicanos entenderam tudo isso. Com produção em declínio desde 2004, a Pemex perdera a majestade.

O jeito era quebrar um tabu de 75 anos e derrubar o monopólio. A mera proposta colocou Peña Nieto no pelourinho ainda na campanha. Acusado de entreguista pela esquerda nacionalista, o candidato do Partido Revolucionário Institucional, a legenda conservadora que inventara o monopólio, citou a Petrobrás.

Eleito, cumpriu a promessa e inovou. Introduziu um modelo híbrido, misturando regimes de concessão e partilha. Reservou para a Pemex a maioria dos campos com reservas comprovadas em águas rasas. Já para as reservas novas, em águas ultraprofundas, com custo e risco exploratórios maiores, chamou o mundo.

Peña Nieto fala em atrair US$ 50 bilhões em investimentos. Ainda é uma promessa, com muitos obstáculos pela frente. No entanto, o caminho já está traçado e a rota passa por aqui, o Brasil de 20 anos atrás.

É COLABORADOR DA BLOOMBERG VIEW E COLUNISTA DO 'ESTADO'

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.