Angela Ponce/REUTERS
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Eleição no Peru, um conto de fadas ou filme de terror? leia análise

No Peru, anti-establishment celebra epopeia de Pedro Castillo, um humilde dirigente sindical convertido da noite para o dia em inquilino da Casa de Pizarro; despertar, no entanto, é cruel

Carlos Melendez*, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 18h52
Atualizado 11 de junho de 2021 | 19h02

O que acontece em uma sociedade para que um político novato, desconhecido da maioria dos cidadãos, repentinamente atraia os 50% + 1 das preferências eleitorais? Pedro Castillo (registrado no partido Peru Libre poucos dias antes de iniciar a campanha eleitoral) ensaiou um discurso plebiscitário, mais radical na forma do que no conteúdo, e tocou as fibras dos peruanos em um país cansado das limitações de seu modelo econômico, mas também da corrupção endêmica de sua classe política.

A história política do presidente virtual do Peru é digna de um conto de fadas: um professor de escola rural, um camponês de chapéu folclórico e de andar fatigado, sem experiência significativa na política nacional, é tocado pela varinha mágica do amargor anti-establishment que as massas acumularam devido a uma crise que antecede a pandemia de covid-19 e é combinada com uma segregação econômica, social e cultural de um país dividido em dois: Lima e uma costa norte moderna e globalizada integrada ao século 21 e uma região andina negligenciada, marginalizada e ancorada no século 20.

O anti-establishment celebra a epopeia de um humilde dirigente sindical convertido da noite para o dia em inquilino da Casa de Pizarro pela magia democrática que permite a qualquer cidadão com mais de 35 anos tentar ao mais alto cargo nacional. Enquanto o establishment fundado nas reformas de ajuste dos anos 90 cambaleia apesar da equipe de peso que adotou para sobreviver, o romantismo progressista saúda a "vingança histórica" ​​que a "utopia arcaica" dos andinos promove contra o defensores do liberalismo pró-mercado.

Mas contos de fadas são histórias para sonhar. O despertar é cruel: um outsider é um tipo de liderança precária, com o apoio de um partido marxista-leninista (Peru Libre) que lhe permitiu concorrer (em troca de quê?) e com aliados de esquerda pós-materiais de última hora, cheios de boas intenções mas com pouca representação no próximo Congresso (5 deputados de um total de 130).

Políticos arrogantes e oportunistas cercam o novo meio presidencial, a ambição nas garras do poder. Às vezes, os radicalismos não são resultado de ideologias ultrapassadas, mas da desordem e da falta de planejamento. E enquanto Castillo hoje luta para que os votos a seu favor não sejam anulados e consiga consagrar sua epopeia, ao mesmo tempo ensaia com improvisação gestos que estejam à altura de um estadista em um dos países que mais sofreu com as consequências da pandemia.

O resultado tão incerto não porque a crise institucional que arrasta o Peru não se resolve com um outsider antissistema, por mais que ele prometa uma mudança constitucional com mais intuições do que propostas. Nada mais assustador do que imaginar um inexperiente assumindo o comando de um barco no meio de um naufrágio. Exceto um golpe de sorte.

* É professor na Universidade Diego Portales (Chile) e pesquisador do Centro de Estudos de Conflitos e Coesão Social.

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