Conto de realismo fantástico

O jornalismo reporta e analisa fatos e não especula. Mas há irresistíveis tintas de ficção no enredo recente no Cone Sul, onde um ex-bispo que se tornou presidente foi deposto em uma ação entre amigos e as nações vizinhas revidaram, expulsando Assunção do Mercosul para depois efetivar a adesão da Venezuela ao bloco. Tudo em nome da democracia incondicional.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h06

Segue-se uma breve fantasia latino-americana:

Em cerimônia pomposa a ser realizada no Rio de Janeiro, Hugo Chávez foi o convidado de honra. O país anfitrião caprichou na festa. Não é todo dia que o Mercosul, o bloco latino-americano dedicado a liberalizar o comércio internacional, ganha não só um novo sócio pleno, senão um expoente do socialismo do século 21.

No palanque, estavam os chefes de Estado dos países fundadores do bloco, menos o Federico Franco, do Paraguai - representante do governo postiço, enxerto de um "golpe parlamentar" contra o presidente Fernando Lugo. E todos estavam unidos em execrar esse fato e defender o compromisso democrático das Américas, "com unhas e dentes", como disse a presidente argentina Cristina Kirchner.

"Viva Chávez", saudava o público no Rio.

Até lá, tudo corria conforme o protocolo. A presidente brasileira, Dilma Rousseff, fez o discurso de boas-vindas. Sem tocar no nome daquela nação delinquente, afirmou no entanto que não havia nas Américas mais espaço para democracia contrabandeada.

De terno e "guaiabera", Rafael Correa, presidente do Equador, bradou contra golpes disfarçados com legalismos. "Nunca mais permitiremos golpes suaves que, sob o verniz de legalidade, estilhaçam as instituições", ecoou Cristina Kirchner, de tailleur preto e salto Christian Loboutin.

Os comentaristas saudaram uma nova alvorada para a região. "Venezuela ganhou o dia, com acesso ao Mercosul, mas o maior vencedor é a democracia", anunciou a união de cientistas políticos latino-americanos, em declaração escrita. "O continente disse não à 'democradura'", arrematou, em referência ao neologismo para a mistura de democracia com ditadura, cunhado por um eminente sociólogo brasileiro.

'Nova transparêncioa'. O dia seguinte raiou fulgurante no hemisfério. De volta a Buenos Aires, Cristina Kirchner anunciou reformas em sua nova campanha, "transparência e liberdade".

De noite para o dia, o Instituto de Estatísticas começou a divulgar os números reais de inflação (a taxa imediatamente dobrou).

A Casa Rosada arquivou processos contra jornalistas que a desafiavam, publicando análises independentes, e imediatamente anulou o seu decreto restringindo a importação de bobinas de papel de jornal, e ainda chamou os jornais Clarín e La Nación - dois dos maiores diários de Buenos Aires - de "parceiros da democracia argentina".

Havia quem falasse até em acordo histórico com Grã-Bretanha para coadministração das Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos).

No Equador, não foi diferente. Mal chegou a Quito e Rafael Correa telefonou para o jornal El Universo, pedindo desculpas públicas pelo processo de US$ 40 milhões que havia movido contra os editores e convidou Emilio Palacio, ex-editor do jornal, para assumir o novo cargo de ombudsman nacional.

De Miami, para onde fugiu por temer sua prisão em Equador, Palacio declinou do convite, mas mandou agradecer por meio de sua advogada, Sandra Grossman, que está pleiteando o seu pedido de asilo político dos Estados Unidos.

Em La Paz, Evo Morales pediu a Justiça que arquivase todos os processo contra ex-presidentes e ministros de governos passados.

E pediu que soltasse prefeitos e governadores opositores presos, uma incumbência que causou alvoroço nos tribunais pelo volume de autos envolvidos.

Em reconhecimento ao gesto de La Paz, o senador Roger Pinto desistiu do asilo político concedido pelo Brasil - após meses de confinamento na embaixada brasileira na cidade.

O juiz Juan Antonio Morales, sob prisão domiciliar desde o ano passado, comemorou, passeando com seu cachorro samoyed.

Prêmio Cuba 500. O único desfalque foi Raúl Castro que pedia dispensa da cerimônia no Rio de Janeiro por um conflito de agenda. O líder supremo cubano teve de presidir a premiação do Havana 500, a lista dos 500 mais ricos do novo sistema de capitalismo cubano.

Mais notável foi Hugo Chávez. Na cerimonia no Rio, o sócio debutante no Mercosul estava irreconhecível. Sorridente e bem disposto, apesar do evidente inchaço e fadiga da longa batalha com o câncer, fez um discurso enxuto. Não disparou os até aqui fulminantes impropérios contra o império ianque nem os petits inaquis latinos.

Fez nenhuma referencia ao "viagra social", sua outrora receita bolivariana para o "neoliberalismo" do Mercosul. Meses depois, Hugo Chávez admitiria derrota na eleição presidencial.

Mandou tirar os fuzis Kalashnikov da mão dos três milhões de milicianos populares e devolveu à iniciativa privada dezenas concessões de rádio e televisão cassadas.

Os venezuelanos assistiam a tudo pela Rádio Caracas Televisão (RCTV) - que um dia teve seu pedido de concessão não acatado pelo presidente bolivariano. 

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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