Contra a Aids, injeções gratuitas e papo

Eles já experimentaram todos os tipos de drogas, conhecem como ninguém os pontos de consumo da sua região e se relacionam tão bem com os traficantes da área quanto com o padeiro ou o açougueiro do bairro. Agora, vão usar esse "currículo" para ajudar na prevenção de doenças como a Aids e a hepatite entre os usuários de drogas injetáveis da cidade. A partir dia 1.º do mês de vem, 66 ex-usuários de entorpecentes, treinados na semana passada pela Coordenadoria Municipal de DST/AIDS, vão passar a distribuir kits com seringas descartáveis na região onde moram. "São pessoas de falam a mesma língua de quem usa as drogas, sabem encontrá-los e são ouvidos por eles", diz Regina Bueno, coordenadora do Projeto de Redução de Danos de São Paulo. O projeto é novidade na capital: apesar de já ter sido implantado em cidades como Salvador e Santos, o uso dos chamados agentes "redutores de danos" ainda não acontecia em São Paulo. Por aqui, a distribuição dos kits "Injete Seguro" - que vem com duas seringas, água destilada, recipiente para preparar a droga, lenços com álcool e preservativos - funciona desde setembro, mas só em 19 postos de serviço da Prefeitura. São 3 mil kits fornecidos pelo Ministério da Saúde distribuídos por mês, a maioria para usuários de cocaína injetável. "O problema é que muitas pessoas ainda têm medo de vir buscar porque acham que podem ser presas. Precisávamos ampliar o serviço", diz Regina. Relação íntima com as drogas A maioria dos agentes - que vão receber R$ 300 mensais - já costumava freqüentar os postos para pegar kits para os amigos. É o caso de Milton Marianno, de 35 anos, morador da Vila Jaguara, zona oeste. Sua relação com as drogas é íntima: aos oito anos, fugiu de casa por causa das surras que levava do pai e se refugiou na casa de traficantes. Passou a usar maconha e a beber. Aos 25, começou a negociar cocaína e a usar craque. Há cinco anos, depois de passar 24 dias em um hospital, deciciu parar. "Me olhei no espelho e estava mais magro que morador da Etiópia". Desde então, freqüenta semanalmente o Serviço de Atendimento Emergencial do Butantã, onde tenta passar a sua experiência a outros usuários. Há seis meses, passou a distribuir os kits entre os amigos. "Conheço pelo menos umas 50 pessoas que usam. Já vi gente pegando água de dentro do vaso sanitário para diluir", diz. Nem sempre, porém, a recepção é boa. "Mesmo me conhecendo, desconfiam. Precisei conversar com todos os traficantes e deixar kits com eles". Ex-funcionário da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, Arlindo da Silva, de 44 anos, cansou de freqüentar as reuniões de usuários de drogas que acontecem perto dos trilhos dos trens, em São Miguel, zona leste. "Só usava maconha, mas via meus colegas se picando". Há dois anos, resolveu ajudá-los. "Muitos perderam o emprego e a família. Levava sopa e preservativos". No final de 2001, foi convidado pelas assistentes sociais do Centro de Testagem e Aconselhamento da região a distribuir os kits. "Até os traficantes gostaram". A idéia do programa é que os agentes circulem em dias fixos pelos locais de uso das drogas, identificados com um boné e camiseta. Além de explicar aos usuários que eles podem trocar os kits nos postos, vão ensiná-los a usar a droga da forma mais segura e recolher as seringas. "Não podem ter o discurso de ´não às drogas´, porque espanta. O objetivo é evitar que os usuários se contaminem. E que vindo aos postos possam se interessar por se tratar", diz Regina.

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