EFE/Wallace Woon
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Contra a corrente

O governo de Peña Nieto enfrenta a fúria da população e a resistência dos sindicatos

LOURIVAL SANT’ANNA*, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

Com um olho nas urnas e outro nos preparativos para enfrentar o Brasil amanhã, os mexicanos devem eleger presidente hoje o populista de esquerda Andrés Manuel López Obrador. Disputando pela terceira vez consecutiva, sob o slogan “amor e paz”, AMLO, como é conhecido, tem muito em comum com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O México vai, portanto, na direção contrária de outros países latino-americanos. Argentina, Chile e Peru se deslocaram da esquerda para a direita por meio de eleições e o Brasil, por meio de decisão do Congresso. A Colômbia e o Paraguai se mantiveram na direita. Em geral, o fim do superciclo das commodities levou as economias sul-americanas a uma aterrissagem forçada, que ejetou os populistas de esquerda.

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Na verdade, olhando de perto, cada país tem a sua lógica interna. Esses raciocínios sobre “ondas” ou “tendências” são mais teóricos do que empíricos. Escrevo do México. O que explica o voto, aqui, não são as coisas que parecem importantes vistas de longe, mas os problemas cotidianos e, principalmente, o que cada candidato consegue ou não encarnar.

Por exemplo: a agressividade de Donald Trump contra o México seria um estímulo para eleger um candidato nacionalista, aguerrido e até radical, capaz de “brigar” pelo México, certo? Mas isso não é importante para os eleitores mexicanos. Nem para López Obrador, que quase não fala sobre política externa e muito menos tem uma retórica antiamericana. Ele diz apenas que deseja negociar com Trump, e preservar a dignidade e a soberania do México. Mas todos dizem isso.

O que deve eleger López Obrador é o fato de ele encarnar a mudança e fazer promessas generosas, que não poderá cumprir sem desorganizar a economia. Mas sua equipe econômica, comandada por Carlos Urzúa, tem perfil social-democrata, compromisso com o livre mercado e a responsabilidade fiscal. 

O fracasso do governo de Enrique Peña Nieto explica a ascensão de López Obrador tanto ou mais do que suas promessas de conceder aposentadoria aos idosos sem carteira assinada, bolsas aos jovens “nem-nem” (que não trabalham, nem estudam) e muitas obras de infraestrutura, sobretudo no empobrecido sul do país.

Peña Nieto prometeu reduzir à metade a criminalidade, mas, depois de cair, ela voltou ao patamar anterior. Ele disse que a quebra do monopólio da Pemex, a estatal do petróleo, reduziria os preços dos combustíveis, e eles subiram, com a retirada dos subsídios. A corrupção, sempre presente, mas menos visível, saltou aos olhos, com a profusão de denúncias e não sua punição, ao contrário do que tem ocorrido no Brasil, Argentina, Chile e Colômbia.

Os investimentos atraídos pela “reforma energética” somam US$ 156 bilhões. O presidente conseguiu a aprovação de outras duas reformas importantes. Antes, a Telcel, sucessora da estatal Telmex, tinha o monopólio das antenas de celulares. As concorrentes tinham de pagar a ela pelo seu uso. Isso acabou. Com a concorrência de verdade, caíram as tarifas de telefonia e internet. 

Antes, não havia concursos para professores, que vendiam suas vagas ou passavam aos filhos quando iam se aposentar. Governos estaduais e sindicatos distribuíam empregos na rede de ensino público. Agora, além de concursos, há avaliação de desempenho dos professores, que podem perder seus cargos se não passarem em três exames sucessivos, sendo os dois primeiros seguidos de cursos de capacitação.

Com exceção das telecomunicações, as outras duas reformas não trazem benefícios imediatos, mas futuros. Agora, o que o governo enfrenta é a fúria da população e a resistência dos sindicatos. López Obrador ataca as reformas, tem o apoio dos grupos organizados e promete benefícios já. Se ele cumprir suas promessas, o México regredirá três décadas. Se não cumprir, há o risco de o eleitorado buscar alguém mais irresponsável, daqui a seis anos. 

* É COLUNISTA

 

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