Rodrigo Sura/EFE
Rodrigo Sura/EFE

Contra desabastecimento, Bolívia vai importar gasolina e subsidiar comida

Bloqueios de estradas organizados por partidários do ex-presidente Evo Morales isolam capital boliviana; sem gasolina e diesel, transporte público não funciona, lixo se acumula nas ruas e comida desaparece das prateleiras

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 05h30

LA PAZ - Autoridades bolivianas anunciaram nesta segunda-feira, 18, um plano de emergência para evitar o desabastecimento em La Paz, onde falta combustível e comida em razão de bloqueios de estradas feitos por apoiadores do ex-presidente Evo Morales na região do Altiplano. Entra as medidas estão a importação de gasolina do Peru e do Chile e a distribuição de frango a preços subsidiados.

Nesta segunda na capital, longas filas foram formadas nas praças Belzu e Villarroel e na Igreja de San Miguel, pontos em que os moradores podiam comprar frango a 35 bolivianos (cerca de R$ 20) a unidade. No fim de semana, nos principais supermercados de La Paz, o mesmo produto era encontrado por 95 bolivianos (R$ 60). 

Nas prateleiras, falta de tudo: carne, açúcar, arroz, farinha, ovos, leite, macarrão e óleo. “É difícil conseguir carne no momento. Quase não há. Quando encontramos, só conseguimos comprar clandestinamente”, disse Gualberto Albornoz, frequentador do Mercado Rodríguez, de La Paz.

Quem consegue encontrar o produto, além das filas, tem de pagar caro pelo ágio – que pode até duplicar o preço do produto – e aceitar o racionamento na hora da compra. Embora o problema seja mais grave em La Paz, situação parecida foi registrada nas cidades de Cochabamba e Sucre. 

O bloqueio de estradas que sufoca La Paz também afeta o abastecimento de combustível, que paralisa o transporte público e pressiona os preços. Nesta segunda, o ministro dos Hidrocarbonetos, Víctor Hugo Zamora, anunciou que o governo vai começar a importar gasolina e diesel do Chile e do Peru. “Serão cerca de 100 caminhões-tanque, que servirá para que o transporte público seja retomado”, disse Zamora à estatal Bolívia TV.

Carlos Lara, taxista de 72 anos, dormiu várias noites em seu táxi na frente de um posto de gasolina para não perder a chegada de um desses caminhões. “Se não há gasolina, não trabalhamos”, disse Lara, estacionado ao lado de outros 20 carros. O panorama é similar em quase todos os postos de combustível da capital.

Desde que assumiu o governo, na semana passada, a presidente interina, Jeanine Áñez, tenta consolidar seu poder: nomeou um novo ministério, um novo comando das Forças Armadas, aproximou-se dos militares, e rompeu com Cuba e Venezuela. No entanto, o governo considera fundamental conter a disparada da inflação e a retomada dos serviços básicos, para acalmar os ânimos.

“Precisamos restaurar o fornecimento de combustível, principalmente em La Paz”, disse Jeanine. A gasolina e o diesel são cruciais, mas não são o único problema. As ruas da capital amanheceram imundas nesta segunda. A falta de combustível tirou de circulação os caminhões de lixo e o recolhimento foi interrompido. Luis Revilla, prefeito de La Paz, anunciou uma operação de emergência, no domingo, que recolheu 46 toneladas de lixo em pontos críticos, onde havia mais riscos de doenças.

O esforço, porém, é insuficiente. Segundo o prefeito, a capital produz cerca de 500 toneladas de lixo por dia. “Pedimos à população que mantenha o lixo dentro de casa, quando for possível”, disse Revilla. “Os resíduos orgânicos devem ser jogados em vasos e jardins, para evitar o mal cheiro.”

Outro problema que tem de ser resolvido rapidamente pelas autoridades bolivianas é o funcionamento das escolas de La Paz e El Alto, fechadas há uma semana por falta de segurança. “As escolas permanecerão fechadas até que as condições melhorem”, afirmou nesta segunda o diretor de Educação do governo, Juan Churata – o cargo de ministro da Educação ainda não foi ocupado. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.