Pete Marovich/The New York Times
Pete Marovich/The New York Times

Contra discurso de ódio, fórum virtual Reddit bane comunidade pró-Trump

Grupo de 790 mil usuários desrespeitou regras de plataforma virtual e foi avisado sucessivas vezes antes da decisão; comunidade era onde surgiam muitos vídeos, mensagens e memes favoráveis ao presidente americano

Mike Isaac / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 09h43

SÃO FRANCISCO - O Reddit, um dos maiores fóruns de discussão virtuais, baniu a maior comunidade dedicada ao presidente Donald Trump como parte de uma revisão de suas políticas de discurso de ódio. 

A comunidade chamada "The_Donald" tinha cerca de 790 mil usuários que postavam vídeos virais, memes e mensagens de apoio a Trump. Os executivos do Reddit disseram que o grupo, que tem sido altamente influente na alimentação da base on-line de Trump, quebrou consistentemente suas regras ao permitir que as pessoas assediassem outras pessoas com discurso de ódio. 

"O Reddit é um lugar de comunidade e de pertencimento, não é para atacar pessoas", disse Steve Huffman, executivo-chefe da empresa. "'The_Donald' violou isso." O Reddit também cancelou cerca de duas mil outras comunidades de todo o espectro político, incluindo uma dedicada ao grupo de esquerda Chapo Trap House, que tinha cerca de 160 mil usuários regulares e também violava as regras. Muitos fóruns banidos já estavam inativos.

O grupo no Reddit, que tem sido uma base digital para os apoiadores de Trump, foi de longe a comunidade mais ativa e proeminente contra a qual o Reddit decidiu agir. Por anos, muitos dos memes mais virais de Trump que invadiram o Facebook, Twitter, WhatsApp e outros lugares foram encontrados ali. Alguns vídeos foram publicados até pelas próprias contas do presidente em outras redes sociais. 

Huffman disse que os usuários frequentemente violavam as regras da plataforma e comentou que outros membros do Reddit tentaram repetidamente argumentar com moderadores do "The_Donald", que dirigiam a comunidade voluntariamente, sem sucesso. Proibir o fórum foi o último esforço. "Demos a eles muitas oportunidades, (mas) a mensagem deles foi clara de que não tinham a intenção de trabalhar conosco."

Cobranças 

As redes sociais enfrentam cobranças cada vez maiores sobre os tipos de conteúdo que hospedam e suas responsabilidades de moderar essas informações. Enquanto o Facebook, Twitter, YouTube, Reddit e outros se posicionavam originalmente como sites neutros que simplesmente hospedavam postagens e vídeos de pessoas, os usuários agora estão pressionando-os a tomar medidas contra discursos odiosos, abusivos e falsos em suas plataformas.

Alguns sites recentemente se tornaram mais proativos ao lidar com esses problemas. O Twitter começou a adicionar marcas no mês passado a alguns dos tuítes de Trump para refutar sua veracidade ou marcá-los por glorificar a violência. Na segunda-feira, o site de streaming Twitch suspendeu a conta de Trump por violar suas políticas contra conduta odiosa. O canal de Trump retransmitiu um de seus comícios de campanha a partir de 2015 no qual ele criticava mexicanos e imigrantes. 

O YouTube também disse nesta semana que estava impedindo seis canais por violar suas políticas. Eles incluíam os de dois proeminentes supremacistas brancos, David Duke e Richard Spencer, e a American Renaissance, um grupo supremacista branco. Stefan Molyneux, um podcaster que acumulou uma grande audiência no YouTube por seus vídeos sobre filosofia e política de extrema direita, também foi expulso do site.

Facebook perde patrocínio 

O Facebook, a maior rede social do mundo, disse que se recusa a ser um árbitro de conteúdo. A empresa disse que permitiria que todos os discursos de líderes políticos permanecessem em sua plataforma, mesmo que as postagens fossem falsas ou problemáticas, porque esse conteúdo era digno de ser publicado e era do interesse do público ler.

Desde então, está sendo alvo de críticas cada vez maiores. Nas últimas semanas, grandes anunciantes, incluindo Coca-Cola, Verizon, Levi Strauss e Unilever, disseram que planejam interromper a publicidade na rede social porque estavam descontentes com a maneira como lidam com discurso de ódio e desinformação.

Andrea Hickerson, decana associada da Faculdade de Informação e Comunicações da Universidade da Carolina do Sul, disse que as ações crescentes das empresas de mídia social ajudam a reduzir "o barulho e a confusão injustificada em torno do que é verdade". "As empresas de mídia social estão reconhecendo que alguns de seus próprios usuários são o problema", disse ela.

Reddit foi se adequando com o tempo 

O Reddit, fundado há 15 anos e com mais de 430 milhões de usuários regulares, é um dos locais da internet que estava disposto a hospedar todos os tipos de comunidades. Nenhum assunto - videogame, maquiagem, saúde, alimentação, política - era pequeno demais para discutir. As pessoas poderiam simplesmente se inscrever, navegar anonimamente e participar de qualquer uma das 130 mil comunidades ativas.

No entanto, essa posição levou a muitos problemas conteúdos censuráveis em todo o site, pelos quais o Reddit sempre enfrentou críticas. A empresa já hospedou fóruns que promoviam o racismo contra negros e sexualizavam crianças menores de idade, tudo em nome da liberdade de expressão. 

Isso mudou com o tempo. Em 2015, o Reddit introduziu políticas contra o assédio. No final daquele ano, baniu comunidades críticas a pessoas negras e obesas. Em 2016, lançou medidas e ferramentas adicionais contra o assédio. Também derrubou fóruns dedicados a comprar e vender abertamente medicamentos.

O Reddit disse nesta semana que estava introduzindo oito novas regras que definiam os termos que os usuários devem cumprir. Isso inclui proibições mais duras contra o assédio, a revelação da identidades de outras pessoas, a publicação de conteúdo sexual relacionado a crianças menores de idade ou o tráfico de substâncias ilegais e outras transações ilícitas.

Embora o site já tenha banido muitos desses comportamentos, as mudanças mais recentes são mais duras contra aqueles que “promovem o ódio com base na identidade ou vulnerabilidade”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.