Contra Estado Islâmico, EUA assume risco de parecer complacente com ditaduras

Ao liderar coalização contra os jihadistas sunitas, Estados Unidos acabam favorecendo países xiitas, como o Irã e o regime Bashar Assad, rivais dos extremistas

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h03

NOVA YORK - Barack Obama convenceu países árabes a participar dos ataques contra o Estado Islâmico (EI) na Síria e conseguiu novas adesões aos bombardeios de posições do grupo no Iraque, mas a recém-iniciada campanha está repleta de riscos para os EUA. A lista do que pode dar errado inclui um número expressivo de vítimas civis e a eventual percepção de que Washington se alia a regimes autoritários ou a um dos lados da divisão sectária do Oriente Médio.

Em seu discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na quarta-feira, Obama esforçou-se para dar um caráter coletivo à ação contra o EI, mas não há dúvida de que a ofensiva é liderada pelos EUA, que navegarão em um campo minado na tentativa de derrotar o grupo radical.

Frederic Wehrey, especialista em Oriente Médio do Carnegie Endowment for Peace, observa que é importante ter coalizões, mas ressalta que a associação a países do Golfo Pérsico tem um custo. "Se nossos parceiros na região suprimirem o dissenso e colocarem pessoas na prisão arbitrariamente sob o pretexto de combater o terrorismo, isso pode levar a uma nova onda de radicalização", disse em entrevista ao Estado.

Iniciados na segunda-feira, os bombardeios na Síria contam com o apoio de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Jordânia. São países governados por sunitas, o que reduz o risco de os EUA serem retratados como defensores dos xiitas e seus aliados na Síria e no Iraque. Mas todos são monarquias que estão longe de exibirem credenciais democráticas.

A intervenção na Síria também traz o risco do fortalecimento do regime de Bashar Assad, que Obama ameaçou com bombardeios no ano passado depois do uso de armas químicas contra a população civil.

"Se os EUA se envolverem mais, ficarem muito dependentes de aliados autocráticos, forem vistos trabalhando de maneira muito próxima a governos xiitas e com menor interesse em combater Assad, isso pode ser muito útil para a narrativa do Isis (uma das siglas pelas quais o EI é conhecido) e para sua capacidade de manter ou aumentar o apoio local de sunitas", escreveu Shadi Hamid, do Centro de Política para o Oriente Médio da Brookings Institution, em discussão online sobre o assunto na semana passada.

A possibilidade de os ataques contra o grupo extremista beneficiarem Assad ficou evidente na reação de seu governo à ação militar americana. "A Síria apoia qualquer iniciativa contra o terrorismo", declarou o dirigente sírio no dia seguinte ao início dos ataques, abstendo-se de criticar o que poderia ser considerado uma violação da soberania de seu país.

Wehrey também criticou a ênfase dada por Obama ao aspecto ideológico do combate ao extremismo, que ganhou destaque no discurso do presidente americano na ONU. "Temos de ter cuidado para não dar importância excessiva à questão ideológica. Este não é um problema religioso, é de reforma política e aperfeiçoamento de instituições desses regimes", opinou.

E muitas das mudanças vistas como necessárias estão fora da esfera decisória de Washington, ainda que os americanos possam pressionar seus aliados na região. Os EUA conseguiram que o ex-primeiro-ministro do Iraque, Nuri al-Maliki, deixasse o poder. Mas seu sucessor, Haider al-Abadi, ainda não concluiu o processo de formação de um gabinete que amplie a participação de sunitas. A dominação do governo pelos xiitas é vista pelos americanos como uma das fontes do extremismo e apoio do EI, sunita.

A divisão entre xiitas e sunitas remonta à morte do Profeta Maomé, em 632, e tem origem em divergências sobre quem deveria substituí-lo. A oposição entre as duas correntes tem forte conotação política e separa o Irã, de maioria xiita, dos sunitas do Golfo Pérsico e caracteriza o confronto sectário em vários países da região.

Os aliados americanos na empreitada contra o EI também estão longe de se unir sob uma agenda unificada e, muitas vezes, possuem interesses conflitantes. Os combatentes curdos peshmergas que enfrentam o EI no norte do Iraque defendem a independência do Curdistão, o que é rejeitado pelo governo de Bagdá.

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