Contra o abismo, menos firula e mais realismo

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h03

A essa altura já se disse tudo sobre o despenhadeiro em que a economia americana ameaça despencar - levando com ela o restante do mundo - se, em pouco mais de um mês e meio, Barack Obama e a maioria republicana da Câmara não conseguirem encontrar um ponto de consenso para renovar os incentivos, subsídios e isenções fiscais que, segundo o entendimento geral, têm evitado um agravamento da situação econômica dos Estados Unidos - e, por tabela, da economia global.

São cerca de US$ 600 bilhões, ao longo de 2013, que deixariam de ser bombeados para uma economia em recuperação, mas ainda muito debilitada e sem tração. O montante foi negociado - e depois renovado - em outros momentos de estresse do gênero, em agosto de 2011 e em fevereiro de 2012, quando a dívida pública ultrapassou, primeiro o limite de US$ 14,3 trilhões e depois de US$ 15,2 trilhões. Atualmente, o limite da dívida é de US$ 16,4 trilhões e terá de ser, mais uma vez, ampliado.

Ficou acertado, nas complicadas negociações anteriores de extensão do endividamento público, que os alívios valeriam até 31 de dezembro, caindo, automaticamente, em 1.º de janeiro de 2013. O volume de recursos em jogo corresponde a 4% do PIB americano e sem esses recursos a expectativa é que seria impossível evitar uma recessão, contribuindo para afundar ainda mais a economia global.

As quedas nas bolsas de valores, nos dois dias que se seguiram à vitória presidencial democrata, dão bem o tom das apreensões que rondam o mundo. É tal, de fato, o potencial de estrago que, de certa maneira, não há bom senso em temer que o bom senso não prevaleça no esforço para superar o impasse.

Do mesmo modo, o calendário apertadíssimo para chegar a um ponto de equilíbrio à primeira vista parece um complicador, mas pode se revelar uma vantagem. Como o tempo é curto, firulas políticas e resistências ideológicas terão de dar lugar a argumentos mais objetivos e propostas mais realistas. Aumentos limitados de impostos e cortes seletivos em programas sociais são apostas possíveis.

Não há bola de cristal capaz de prever o desfecho dessa história. Mas o roteiro das negociações anteriores dá espaço a alguma esperança, em meio a muito suspense. Assim como a crise global mostrou que não se deve descuidar da supervisão bancária porque há bancos grandes demais para quebrar, as consequências de deixar a economia americana despencar num abismo fiscal são dramáticas demais para que não se construam as pontes políticas capazes de evitá-lo.

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