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Contra o Estado Islâmico, nasce uma aliança

Os atentados das últimas semanas unem Rússia e países do Ocidente no ódio e no combate aos extremistas

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 02h02

[GENEROTXT]Por mais que não sirva de alento, o fato é que os atentados terroristas realizados recentemente pelo Estado Islâmico (EI) ao menos se prestaram a reaproximar os inimigos do grupo, que até agora ocupavam posições opostas no conflito mais amplo em andamento na Síria.

Entre outubro e novembro, França, Rússia, Líbano e Turquia perderam, juntos, mais de 500 de seus cidadãos. E no dia 18 o EI anunciou ter matado mais dois reféns: um chinês e um norueguês. No entanto, ainda que a prioridade comum agora seja derrotar o "Daesh" (acrônimo, em árabe, de Estado Islâmico), a confiança permanece limitada.

Conflito. A guerra civil síria, que já dura cinco anos, atraiu para seu atoleiro não só grupos beligerantes locais, como também um bom número de potências regionais e mundiais. Rússia e Irã, com o apoio tácito da China, ficaram do lado do presidente Bashar Assad. Do outro lado, posicionou-se o Ocidente, em companhia de potências sunitas, como Turquia e Arábia Saudita.

Os diplomatas vêm buscando soluções para o conflito. Em 13 de novembro, uma rodada de negociações em Viena resultou num esboço de acordo de paz, contemplando um cessar-fogo, um período de transição e eleições, mas deixando em aberto um detalhe controverso: o destino de Assad.

Na cúpula do G-20, realizada entre 15 e 16 de novembro na Turquia, observaram-se mais alguns progressos. Na reunião do ano passado, turvada pelas tensões relacionadas com a situação da Ucrânia, o clima era tão ruim que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, voltou mais cedo para casa. Desta vez, Putin teve conversas particulares com presidente americano Barack Obama e o primeiro-ministro britânico David Cameron. Analistas russos fizeram paralelos com a aliança que uniu Stalin, Churchill e Roosevelt contra Hitler.

No meio da semana, Rússia e França, que vinham tendo sérios desentendimentos sobre a Síria, já coordenavam ações para intensificar o bombardeio de Raqqa, capital do "califado" do EI. A Rússia ordenou o recuo de sua frota no Mediterrâneo oriental, para dar passagem a um porta-aviões francês. Mas os russos continuam a bombardear posições de grupos rebeldes sírios que são apoiados pelo Ocidente, e insistem em dizer que Assad deve permanecer no poder em Damasco.

Questão em suspenso. Os 17 países que participaram da reunião em Viena estabeleceram 1º de janeiro como data para o início do processo de transição. A ideia é que a ONU negocie e monitore um cessar-fogo, enquanto os partidários de Assad e a fragmentada oposição síria formam um governo provisório. As eleições ficariam para 2017. E caberia à Jordânia liderar a espinhosa missão de distinguir os "terroristas", que serão excluídos da transição, da oposição legítima, que terá assento no governo provisório.

O fato de que o Irã, até então banido das conversações, tenha sido integrado ao grupo de Viena é motivo de esperança. Mas não faltam razões para ceticismo. É quase impossível realizar a tarefa de que os jordanianos ficaram incumbidos. Alguns dos grupos que a Rússia vem atacando, sob a alegação de estar combatendo o terrorismo, são apoiados pelos Estados Unidos. E a Grã-Bretanha diz que talvez seja necessário envolver na transição alguns dos agrupamentos rebeldes menos palatáveis, incluindo islamitas devotos, mas excluindo o Estado Islâmico e a ramificação da Al-Qaeda na Síria, a Frente al-Nusra. As negociações e os conchavos, na hora de definir quem fica de fora e quem entra nessa lista, serão cínicos e prolongados.

O futuro de Assad continua a ser um grande obstáculo. Mas está cada vez mais claro que a prioridade do Ocidente agora é a luta contra o Estado Islâmico. Assad ficará para depois. "Não há solução de longo prazo com a presença de Assad, mas o nosso inimigo na Síria é o Daesh", afirmou esta semana o presidente francês François Hollande. Ao que tudo indica, portanto, no curto prazo Assad será uma figura tolerada, até mesmo pelos EUA e seus aliados na questão.

Os russos dizem que é preciso abandonar de vez a exigência de que Assad saia do poder. Isso não vai acontecer; o presidente sírio tem muito sangue nas mãos para que o Ocidente aceite sua permanência indefinida no comando do país. Algumas autoridades ocidentais acreditam inclusive que, com a intervenção na Síria, os russos começam a se dar conta de que Assad é realmente um aleijão.

Em 17 de novembro, a Rússia admitiu que o avião de passageiros da Metrojet que caiu sobre o Egito matando as 224 pessoas a bordo foi derrubado por uma bomba, alinhando sua posição com a do Ocidente. Putin prometeu uma desforra.

"Vamos encontrar os responsáveis, onde quer que eles estejam, e vamos puni-los". Se os russos complementarem as palavras duras com ações contra o EI e, ao mesmo tempo, passarem a ver alguns grupos que se opõem a Assad como aliados, então o fim do califado pode estar no horizonte. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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