Stephen Crowley/The New York Times
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Contra o livre-comércio

Trump e Theresa May se juntam na esperança de um país salvar o outro

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2017 | 05h00

O presidente americano, Donald Trump, e a premiê britânica, Theresa May, têm todo o interesse em se amar. A primeira-ministra de Londres – que substituiu David Cameron depois que os britânicos aprovaram o Brexit no referendo realizado em julho – é o primeiro chefe de governo recebido por Trump.

O que os une? Além da tradicional afinidade entre América e Reino Unido, o desejo comum de reformular as normas do intercâmbio internacional. Atualmente, em razão da globalização, o planeta é regido cada vez mais pelo livre-comércio. E Trump não quer mais saber do livre-comércio.

Brandindo seu slogan “America em primeiro lugar”, ele considera catastrófico o sistema atual, porque os EUA se esvaem em sangue enquanto os outros crescem. Um exemplo: os EUA têm um déficit vertiginoso em seu comércio exterior, uma perda anual de US$ 475 bilhões, enquanto a Alemanha tem um superávit de US$ 220 bilhões, e a China, de US$ 265 bilhões.

Para May, o esquema é um pouco diferente, mas implica nas mesmas decisões. Ela é obrigada a enfrentar os efeitos do Brexit. E esses efeitos são pesados, porque May escolheu um “Brexit duro”. Ao se retirar da União Europeia, o Reino Unido não quis manter com o Velho Continente os vínculos que lhe teriam permitido um acesso privilegiado ao espaço econômico europeu de 500 milhões de consumidores sem barreiras alfandegárias nem entraves regulamentares. Londres está, portanto, condenada a substituir as amputações devidas ao Brexit por novas aberturas, inicialmente com os Estados Unidos, a “nação irmã”.

Eis por que Donald Trump, nas primeiras declarações após sua posse, depois de ter insultado todo mundo, acrescentou que o Reino Unido era um outro caso, pois ele tinha feito o Brexit e em breve assinaria um magnífico acordo comercial com Londres. May tomou o avião e foi para Washington. Salve a América!

Manobra. Graças ao comércio com os Estados Unidos, Londres poderá reduzir os gastos criados por seu afastamento da União Europeia que, até aqui, absorveram 50% das exportações do Reino Unido. Mas as coisas não são tão simples. Em Bruxelas, o pessoal, muito irritado com Londres depois do Brexit, não tem a intenção de ficar assistindo sem reagir. 

De fato, o processo de divórcio entre a União Europeia e o Reino Unido só será deflagrado por May no final de março. E em seguida, as negociações durarão pelo menos dois anos. Portanto, durante dois anos, Londres estará ainda na União Europeia.

Ocorre que o regulamento da União Europeia é claro: “As negociações de livre-comércio são de competência exclusiva da União Europeia de conformidade com os tratados fundadores”. Tradução: “Um país-membro só pode negociar sobre tais pontos depois de ter deixado a União Europeia.” Antes de dois anos, o Reino Unido não sairá do bloco europeu. Portanto, não deverá assinar o “magnífico acordo comercial” pelo qual Trump, há 15 dias, lambia os beiços.

A questão é que Trump é Trump. E ele não é o tipo de homem que respeite o texto dos tratados. Ele gosta que o mundo, as coisas, os tratados e os homens se conformem à sua vontade. Também Bruxelas se mostra muito cautelosa.

Em vez de confiar no ogro de Washington, a UE prefere assustar o Reino Unido explicando que, nas negociações do “divórcio”, a UE pode, se assim decidir, impor condições extremamente duras. Por exemplo, aumentar o montante do pagamento da dívida que a UE exigirá do Reino Unido para “liquidar definitivamente a conta”, dívida avaliada hoje em US$ 40 bilhões, mas que Bruxelas pode aumentar, se quiser, para até US$ 60 bilhões.

No mês passado, em um de seus voos proféticos, Trump explicou que detestava a União Europeia e ela “é um horror”. Sem dúvida, podemos dizer que ele tinha razão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

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