Contra o narcotráfico, um creme dental de coca

Bolívia defende produtos derivados da folha para frear o uso ilegal da planta

SARA SHAHRIARI, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h07

Apesar de ser considerada ilegal nos regulamentos internacionais, a folha de coca na Bolívia tem muitas utilidades convencionais. Mascar a folha e beber o chá feito com ela são um costume e produtos como pomadas para tratar doenças como artrite são comuns. O governo, com pequenas empresas locais, tem buscado nos últimos meses meios para expandir o mercado legal da folha de coca e fabricar produtos à base de coca para exportar. Até uma pasta de dente está entre eles.

Dionisio Nuñez, vice-ministro boliviano para essa área, diz que a inclusão de folhas de coca em novos produtos é parte fundamental de um plano do governo para coibir o tráfico. "Poderíamos usar mais folhas de coca em produtos industrializados que não causam danos e haveria menos coca para o tráfico de droga", argumenta.

A coca é cultivada há milhares de anos nos Andes, onde tem usos religiosos, além de medicinais. Mas a folha também é processada e transformada em cocaína e crack, fato que tornou sua plantação alvo de operações dos EUA há décadas.

A industrialização financiada pelo governo segue lentamente. Uma fábrica na região de Chapare, que deverá produzir doces, licores e bolachas à base de coca, ainda não está funcionando. Uma segunda, em La Paz, deverá iniciar a produção este ano.

Na semana passada, 20 pequenos empresários reuniram-se para discutir os desafios de industrializar a folha. Alguns produzem mercadorias como chá em saquinhos e xaropes medicinais há décadas, ao passo que outros começaram recentemente a fabricar bebidas energéticas, bolachas e a pasta de dente, incentivados pelo governo. Muitos esperam que a iniciativa do presidente Evo Morales, um ex-plantador da folha de coca, leve seus produtos a mercados dos países vizinhos e até da Europa.

A Bolívia tem 10 milhões de habitantes. A exportação de produtos de coca é proibida pela Convenção das Nações Unidas de 1961 sobre narcóticos, salvo se os produtos contiverem menos de 1% de alcaloide. Nesse aspecto, existe outro desafio para a exportação: seria necessário fazer análise nutricional, estudos sobre alcaloides e digestão humana e uma avaliação da quantidade de alcaloide de cocaína nos produtos comerciais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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