Contra patrões e Cristina, sindicalistas param sistema bancário da Argentina

Uma greve geral paralisou ontem o sistema bancário em toda Argentina. O sindicato optou pelo confronto direto com o governo da presidente Cristina Kirchner e prometeu não recuar da exigência de aumento salarial de 35%. Inicialmente, os sindicalistas pretendiam estender a greve até hoje, mas depois voltaram atrás.

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h06

A proporção reivindicada pelos bancários equivale à inflação extraoficial registrada neste ano, segundo consultorias argentinas e agências internacionais de rating. Mas a Casa Rosada rejeita esse índice e sustenta que a alta dos preços em 2012 não passará de 10%.

Na quarta-feira, o Ministério do Trabalho ordenou a conciliação obrigatória, medida que suspenderia automaticamente a greve. No entanto, os sindicalistas rejeitaram a decisão, alegando que Cristina e os bancos estão aliados contra os trabalhadores.

O governo argentino recusa qualquer tipo de aumento salarial superior a 18%. O objetivo é evitar um efeito de contágio que aumente a escalada inflacionária - embora a Casa Rosada negue haver uma crise desse tipo. Segundo os bancários, o governo pretende "disciplinar" os bancários para evitar que outros sindicatos também exijam aumentos similares.

A vice-ministra do Trabalho, Noemi Rial, declarou que o governo aplicará suas "ferramentas administrativas" contra os sindicalistas por não aceitar a ordem de conciliação obrigatória e cancelar a greve.

Com a paralisação dos bancários, abre-se mais uma frente de batalha entre o governo e setores que se opõem à Casa Rosada.

Na quarta-feira, quatro associações ruralistas do país paralisaram as atividades agropecuárias por 24 horas em protesto contra o confisco dos terrenos e edifícios da Sociedade Rural no bairro de Palermo. No local, são realizadas anualmente a Exposição Rural e a Feira do Livro de Buenos Aires. Ambos os eventos costumam ser tribunas de duras críticas à presidente.

O líder da Sociedade Rural, Luis Etchevere, afirmou que a estatização das instalações da entidade são uma vingança do governo pela crise de 2008, quando associações ruralistas enfrentaram Cristina com um locaute de quatro meses. Na época, a Casa Rosada pretendia aplicar um "impostaço agrário", derrubado no Senado por margem estreita - apenas um voto.

No dia 18, alas "rebeldes" da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) realizaram uma manifestação com dezenas de milhares de pessoas na Praça de Maio. Eles exigiam uma mudança na política econômica do governo de Cristina.

Os sindicalistas - que no dia 20 de novembro já haviam realizado a primeira greve geral da era Kirchner - acusam a presidente de aplicar "políticas econômicas mais ortodoxas do que as do FMI" e de ter traído os "ideais trabalhistas" do peronismo.

Na manifestação, o secretário-geral da "CGT rebelde", o caminhoneiro peronista Hugo Moyano, afirmou que os sindicatos não se "ajoelharão" diante de Cristina.

As principais causas da insatisfação com o governo argentino em 2012 são o aumento da inflação e a retomada do crescimento da pobreza, segundo um relatório da consultoria Diagnóstico Político. De acordo com o estudo, ao longo do ano, foram registrados 4.897 piquetes em estradas e avenidas - um aumento de 52,36% em comparação com 2011. Os protestos também foram reprimidos com maior violência por parte das forças de segurança. Segundo dados da CTA, nos últimos três anos, 22 pessoas morreram em manifestações.

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