Contra revoltas, Teerã recorre a reformas

Os protestos que tomaram as ruas de Teerã há dois anos em muito se assemelham à primavera árabe, que abala o Oriente Médio desde janeiro: jovens saíram às ruas para pedir democracia, com o auxílio da internet para driblar a repressão de governos autoritários. Dois anos depois da "primavera persa" a sociedade iraniana continua potencialmente problemática. E, para evitar uma revolta popular mais ampla, o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad tenta emplacar reformas econômicas.

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

O carro-chefe dessas mudanças é o corte dos US$ 100 bilhões anuais em subsídios para compra de alimentos e combustível. A medida busca estimular a competitividade da economia iraniana, dependente do petróleo e de fundações religiosas. Além disso, para conter a entrada de importados, o Banco Central desvalorizou a moeda local, o rial, em 11%.

Para analistas, as reformas são necessárias, mas podem facilmente descontrolar a inflação. A elevação nos preços das commodities no mercado mundial desencadeou uma alta no preço dos alimentos e dos combustíveis. Na Tunísia e no Egito, esse descontentamento econômico certamente impulsionou os protestos contra ditadores seculares, como Zine Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak.

"As reformas podem levar consequências sociais incertas, dependendo de qual caminho tomarem", diz o diretor de pesquisas do Conselho Nacional Iraniano Americano (CNIA), Reza Marashi.

Ainda de acordo com ele, a alta da inflação diminuirá o poder de compra da classe média. Com o preço do combustível mais caro, a produção interna no Irã deverá diminuir, o que pode levar a uma alta do desemprego.

"Os primeiros a perder com isso serão os jovens e os mais pobres, que historicamente formam o núcleo da oposição iraniana. A situação é potencialmente muito volátil se não houver reformas no médio e longo prazos", acrescenta Mareshi.

Nos últimos meses, a inflação, que em 2009 tinha caído drasticamente, voltou a subir. Em maio, foi de 14,2%. Além disso, as sanções impostas pelos EUA e pelas Nações Unidas por causa do programa nuclear iraniano tem estrangulado ainda mais as perspectivas econômicas do país.

Para o analista Reza Aslam, do Council on Foreign Relations, elas tiveram um impacto profundo no Irã. "O presidente Barack Obama acertou ao impô-las", afirma. Por outro lado, a alta no preço do petróleo, também aumenta as receitas do governo, que é um ator importante na economia. Com os cortes de subsídios, Ahmadinejad pode abrir espaço no orçamento para aplicar essa verba em outras áreas.

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