Luis Bravo/AFP
Luis Bravo/AFP

Contrabando de gasolina da Colômbia salva região petroleira da Venezuela

Após trégua passageira por importação iraniana, venda ilegal floresce durante pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 03h00

BOGOTÁ - A Colômbia se alimentou durante anos da gasolina traficada da Venezuela, mas a situação mudou, e o contrabando foi revertido, devido a uma escassez tão dramática que Roger, morador da fronteira entre os dois países, não vê a "gasolina venezuelana" há meses.

"A gasolina colombiana é uma salvação. Se não fosse por isso, ninguém rodaria aqui", disse à Agência France Press Roger, um vendedor de frutas de 37 anos que mora em Santa Cruz de Mara, cidade próxima a Maracaibo, capital do estado venezuelano de Zulia.

O país com as maiores reservas de petróleo deixou de ser exportador e passou a importar combustíveis de lugares tão distantes quanto o Irã.

E quem antes costumava buscar a gasolina mais barata do mundo em caravanas clandestinas, como Marco, nome fictício para proteger sua identidade, agora faz a viagem "ao contrário".

"As autoridades (militares e policiais) nos informam o dia que podem nos deixar passar", diz o homem, que traficou gasolina venezuelana por dez anos.

O itinerário é guiado pelas "moscas", como chamam os informantes que entregam propina aos funcionários da alfândega.

"Partimos de Maicao (Colômbia) quando nos dão sinal verde. São muitas as estradas, mas o percurso é decidido pelas 'moscas', segundo as informações que recebem", conta Marco.

A gasolina entra na Venezuela pelas mesmas passagens ilegais usadas até meses atrás para retirá-la, seja por via terrestre, seja por rios binacionais.

O contrabando floresceu durante a pandemia da covid-19, após a trégua passageira que significou a chegada, entre maio e junho deste ano, de cinco navios com 1,5 milhão de barris de gasolina iraniana.

Venezuela "com a gasolina mais cara"

Apesar do confinamento decretado desde março, a escassez piorou.

Algo paradoxal quando "o mundo está 'nadando' na gasolina devido a um excedente" em razão da queda da demanda durante a pandemia, observa o economista José Manuel Puente, do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Estudos Superiores em Administração (IESA).

Ao atravessar seu sétimo ano consecutivo de recessão, a Venezuela vive sua pior queda na produção de petróleo em sete décadas. Com capacidade para produzir 1,3 milhão de barris de combustível por dia, suas refinarias estão no fundo do poço. Especialistas e sindicalistas atribuem esse quadro à corrupção e à má gestão.

O governo do presidente socialista Nicolás Maduro pôs fim à sua política de praticamente dar combustível e, em junho, o litro da gasolina subiu para 0,50 centavos de dólar.

As reservas foram insuficientes, porém, e o país "passou da gasolina mais barata do mundo à mais cara", segundo Puente.

Isso se deve a um mercado negro onde um litro oscila entre 2 e 3 dólares, enquanto na Colômbia um galão – 3,7 litros – custa em média cerca de 8 mil pesos, o equivalente a 2,15 dólares.

O governo atribui o colapso às sanções financeiras e aos "bloqueios" impostos pelos EUA.

Dezenas de recipientes de plástico cheios de gasolina inundam as ruas de um bairro pobre de Maracaibo.

Em um mercado caótico, homens, mulheres e crianças, alguns sem máscaras, procuram atrair a atenção dos compradores com cartazes que acenam à beira da estrada.

Lê-se um número que indica o preço do "ponto", o equivalente a 20 litros de gasolina: 25, 28, ou 30 (dólares), dependendo da oferta e da demanda do dia.

"Mais de 20 pessoas saltam em você para oferecer gasolina", descreve Fernando, um taxista de 43 anos que dirige com medo pelo bairro.

Sem nenhum controle, milhares de litros ficam armazenados em varandas de casas à espera de compradores, um perigo latente nesta área da quente Maracaibo.

"Não pensei que nosso país teria de comprar gasolina colombiana contrabandeada, ou importá-la", lamenta José Ochoa, técnico em refrigeração de Maracaibo, de 45 anos, que há meses não consegue se abastecer com gasolina no mercado formal. / AFP

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