Contradições da Otan no Oriente Médio

Falta de resposta da aliança na Síria é apenas mais um caso da confusão e da falta de lógica que as respostas ocidentais aos levantes árabes mostraram neste ano

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h05

"Esta é uma época confusa para os simpatizantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)", disse Paddy Ashdown recentemente. O ex-líder dos liberal-democratas e ex-representante internacional para a Bósnia está certo sobre isso, embora ele poderia ter pensado duas vezes antes de acrescentar que "a aliança completou sua missão na Líbia sem uma única baixa". Isso certamente refere-se aos aviadores britânicos e franceses, não aos líbios.

"Confusa" é uma boa palavra em geral para a política ocidental em todo o Oriente Médio. Nossas empreitadas na região foram uma miscelânea de confusão, contradição e desonestidade, do Egito e Líbia à Síria e Irã. E seja lá o que se disser ainda sobre Muamar Kadafi, Saddam Hussein e Osama bin Laden, suas sombras podem reclamar da hipocrisia ocidental.

Quando as alegações sobre armas de destruição em massa desmoronaram, a invasão do Iraque foi retrospectivamente justificada por ao menos ter livrado o mundo de Saddam, o que provocou as suspeitas óbvias de que aquela mudança de regime fora o real objetivo o tempo todo.

Depois, a Líbia foi bombardeada, inicialmente, embora improvavelmente, como uma "missão humanitária". Em nenhum momento, Londres, Paris e Washington admitiram abertamente que estavam tomando partido na guerra civil e ajudando insurgentes a destruir Kadafi.

De novo a "libertação" foi proclamada, mas depois dos fatos. "Primeiro a sentença, depois o veredicto", diz a Rainha de Copas a Alice. Em nosso País das Maravilhas político, a intervenção militar vem primeiro, a justificativa, depois.

Disseram-nos repetidamente após a queda de Saddam que ele havia sido um tirano brutal. Mas há um outro problema lógico aqui.

Organizações de defesa dos direitos humanos observaram que seu regime foi muito menos sanguinário em sua última fase, antes da invasão, do que havia sido após a primeira Guerra do Golfo, quando ele chacinou árabes dos pântanos e xiitas, ou antes.

Uma defesa mais forte da "intervenção liberal" no Iraque poderia ter sido feita décadas antes de ele ser deposto, quando ele estava massacrando curdos. Infelizmente, essa também foi a época em que Washington se inclinava para Saddam em sua guerra brutal contra o Irã, o governo britânico lhe vendia armas e Donald Rumsfeld era um hóspede honrado em Bagdá.

Agora, o padrão de contradições é mantido na Líbia. No dia em que Kadafi foi morto, David Cameron falou da sede do governo, em Downing Street. Cameron tentou manter um tom comedido, mas ele enfatizou os crimes de Kadafi, de armar o Exército Republicano Irlandês (IRA) a explodir aviões de carreira.

O que Cameron diz é bastante verdadeiro: a responsabilidade pela destruição do voo da Pan Am, em 1988, recai sobre Kadafi, e ele certamente também forneceu armas e o explosivo semtex ao IRA. Mas ele somente forneceu o semtex. Este foi usado para matar muitos inocentes pelo IRA, cujo "chefe de gabinete" era Martin McGuinness. Hoje ele é vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte, acaba de concorrer à presidência da República da Irlanda e é um visitante bem recebido nos Estados Unidos.

Isso não passou despercebido no Oriente Médio. Numa entrevista à CNN em 1997, Bin Laden falou dos padrões duplos americanos que beirariam o racismo: "Ao mesmo tempo em que eles condenam qualquer muçulmano que clame por seus direitos, recebem a alta autoridade do Exército Republicano Irlandês na Casa Branca como um líder político". E tinha razão.

Vínculos. Um homem que sabia tudo sobre a conexão de Kadafi com Lockerbie e o IRA era Tony Blair, assim como sabia sobre o massacre na prisão de Abu Salim, em 1996, e outras atrocidades que Kadafi cometera em seu país. Em 2004, Blair foi mesmo assim à Líbia, onde foi retratado sorrindo ao apertar a mão de Kadafi. Com esse "acordo no deserto", Kadafi renunciou ao terrorismo e ao alegado programa de armas não convencionais, com a promessa de que seria reabilitado e o país, trazido de volta à comunidade das nações.

O que lhe sucedeu depois disso, e quais são as implicações? Existe hoje um renovado temor com o programa nuclear iraniano que, diferentemente do de Saddam ou de Kadafi, realmente existe, e, segundo relatos, o governo britânico está fazendo planos de contingência para contribuir em um ataque americano preventivo ao Irã.

Essa é uma perspectiva infeliz que governos ocidentais prefeririam evitar se o esforço de persuasão de Teerã puder funcionar. Mas vejam o destino de Kadafi. É difícil pensar em alguma coisa menos provável que persuadir os iranianos a negociar.

Agora, a Síria produz mais uma contradição. Bashar Assad agarra-se ao poder e adverte o Ocidente para deixá-lo quieto. A Síria é uma falha geológica, diz ele, e uma intervenção "atearia fogo a toda a região".

Mas as potências da Otan evidentemente sentem que já fizeram intervenções de sobra por enquanto. A Síria será deixada quieta, embora a matança de insurgentes em Homs lembre fortemente as matanças em Benghazi que supostamente provocaram os bombardeios da Otan. Esse é apenas mais um caso da confusão e da falta de lógica que as respostas ocidentais aos levantes árabes mostraram neste ano. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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