Saul Loeb/AFP
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Contradizendo Trump, Ucrânia sabia do congelamento de ajuda antes de assunto vir a público 

Cronologia da troca de comunicações sobre o caso mostra que a Ucrânia estava ciente, semanas antes do que admitiram funcionários americanos e ucranianos, de que a Casa Branca estava retendo os fundos

Andrew E. Kramer e Kenneth P. Vogel / NYT , O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 09h00

WASHINGTON - Para os democratas que dizem que a decisão do presidente Donald Trump de congelar um pacote de ajuda militar à Ucrânia de US$ 391 milhões visava a forçar o líder ucraniano a fazer investigações que o beneficiariam politicamente, o presidente americano e seus aliados têm uma resposta simples: não havia um toma-lá-dá-cá no caso porque os ucranianos não sabiam que a ajuda havia sido bloqueada.   

William B. Taylor, o mais alto diplomata americano na Ucrânia, depôs na Câmara na terça-feira, afirmando que o congelamento da ajuda estava ligado diretamente ao pedido de investigações feito à Ucrânia por Trump. Na quarta, o presidente repetiu no Twitter uma declaração de um republicano no Congresso de que nem Taylor, nem outra fonte haviam “testemunhado que os ucranianos estavam cientes de que a ajuda militar havia sido suspensa”.   

Na verdade, porém, a informação sobre o congelamento havia chegado a altos funcionários ucranianos em agosto, segundo declarações e depoimentos obtidos por New York Times.

Os ucranianos foram então informados de que, para encaminhar o pedido, eles deveriam recorrer a Mick Mulvaney, chefe de gabinete em exercício da Casa Branca, segundo as gravações e depoimentos.

A cronologia da troca de comunicações sobre o caso, que não havia sido informada até agora, mostra que a Ucrânia estava ciente, semanas antes do que admitiram funcionários americanos e ucranianos, de que a Casa Branca estava retendo os fundos. E significa que o governo ucraniano sabia do congelamento durante a maior parte do tempo em que, em agosto, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, e dois diplomatas americanos estiveram  pressionando o  presidente Volodimir Zelenski a assumir publicamente as investigações solicitadas por Trump.

As comunicações não ligam explicitamente o congelamente às pressões de Trump e Giuliani para as investigações. Mas funcionários da Ucrânia e dos EUA discutiram a necessidade de se incluir o mesmo alto assessor de Zelenski que negociara com Giuliani o pedido de Trump, sugerindo uma possível ligação entre os dois assuntos.  

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Notícias do congelamento da ajuda chegaram à Ucrânia num momento em que Zelenski, que havia tomado posse pouco mais de dois meses antes após uma campanha na qual prometera erradicar a corrupção e resistir à influência da Rússia, ainda estava incerto sobre como estabilizar as relações de seu país com os EUA.

Dias antes, Trump lhe implorara num telefonema de meia hora para investigar o ex-vicepresidente Joe Biden. As tentativas de Zelenski de garantir uma visita à Casa Branca – apoio vital contra as ameaças russas na fronteira oriental da Ucrânia – estavam paralisadas. A política dos EUA para a Ucrânia vinha sendo dirigida não por um profissional do ramo, mas por Giuliani.

Taylor disse aos investigadores do impeachment que foi apenas nos bastidores de um encontro em Varsóvia em 1º de setembro entre Zelenski e o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que os ucranianos foram informados diretamente de que a ajuda americana dependeria de Zelenski dar a Trump algo que ele queria: uma investigação na Burisma, a empresa que havia empregado Hunter Biden, filho de Joe Biden.

Como o depoimento de Taylor sugere, os ucranianos não confrontaram o governo Trump sobre o congelamento até serem informados, em setembro, de que a ajuda estava ligada à exigência de investigações.Eles pareciam inicialmente esperançosos de que o problema pudesse ser resolvido discretamente e relutavam em se arriscar a um confronto público num momento delicado para as relações entre as duas nações.

A descoberta de que os ucranianos sabiam do congelamento desde o início de agosto corrobora, e dá novos detalhes, à denúncia de um agente da CIA que deu início às investigações de impeachmente por democratas na Câmara.

“No início de agosto, ouvi de funcionários americanos que alguns colegas ucranianos sabiam que a ajuda estava ameaçada”, disse o denunciante anônimo. Ele acrescentou que soube que a ordem para o congelamento “veio diretamente do presidente” e “poderia ter conexão com a tentativa de pressionar os líderes ucranianos”.

Publicamente, Zelenski insistiu em que não sentiu pressões para realizar as investigações de interesse de Trump. Zelenski disse que sabia da suspensão da ajuda militar antes de seu encontro na Polônia em 1° de setembro com Pence, mas foi vago sobre quando soube exatamente sobre ela.

Em conversações vários dias antes, no início de agosto, um funcionário do Pentágono discutiu o congelamento diretamente com um funcionário ucraniano, segundo gravações e entrevistas. O funcionário do Pentágono disse que Mulvaney tinha pressionado para a ajuda ser suspensa e aconselhou os ucranianos falarem diretamente com ele para o prosseguimento das negociações.   

Um funcionário americano, não autorizado a falar publicamente sobre o caso, disse segunda-feira que “Mulvaney não teve nenhum contato com os ucranianos sobrte o assunto”.  

Em conversações com funcionários americanos, os ucranianos acreditavam ter atendido a todas as condições para a liberação, estando tudo dentro do programado, segundo Ivanna Klympush-Tsintsadze, ex-vice-primeira-ministra da Ucrânia para a Integração Euroatlântica. Mas, no início de agosto, os ucranianos lutavam para obter respostas claras de seus contatos americanos sobre a situação da ajuda, segundo funcionários americanos conhecedores do assunto.

Nos dias e semanas após altos funcionários ucranianos serem alertados sobre o congelamento da ajuda, Gordon D. Sondland, embaixador americano na União Europeia, e Kurt D. Volker, então enviado especial do Departamento de Estado à Ucrânia, trabalharam com Giuliani no rascunho de uma declaração a ser dada por Zelenski na qual ele se comprometetia com o prosseguimento das investigações, segundo mensagens de texto que chegaram aos investigadores da Câmara sobre impeachment.

As mensagens, entre Volker, Sondland e o principal assessor de Zelenski, não mencionam a retenção da ajuda. Foi só em setembro, após a reunião em Varsóvia, que Taylor disse numa mensagem a Sondland que achava “loucura reter ajuda para a segurança visando a ajudar numa campanha política”.

  

Após serem informados, em 1º de setembro em Varsóvia, que a ajuda só seria liberada se Zelenski concordasse com as investigações, funcionários ucranianos, incluindo o conselheiro de segurança nacional e ministro da Defesa, ficaram perturbados por não saberem como responder a perguntas de funcionários americanos sobre o congelamento, disse Taylor.   

Zelenski afastou as exigências de Volker, Sondland e Giuliani de um comprometimento público com as investigações. Em 5 de setembro, testemunhou Taylor, Zelenski se reuniu em Kiev com os senadores Ron Johnson,democrata de Wisconsin, e Chris Murphy, democrata de Connecticut. Sua primeira pergunta, segundo Taylor, foi sobre a ajuda. Os senadores responderam, ainda segundo Taylor, que Zelenski “não deveria se envolver em política interna dos EUA”.

Mas Sondland continuava pressionando por um comprometimento de Zelenski e pressionando-o a dar uma entrevista à CNN na qual ele falaria sobre o prosseguimento das investigações almejadas por Trump.  

Zelenski nunca deu a entrevista e nunca se comprometeu publicamente com a exigência de investigações, embora um promotor ucraniano dissesse depois que iria “auditar” um caso envolvendo o dono da empresa que pagou Hunter Biden como membro do conselho diretor.

Giuliani disse que não teve nada a ver com o congelamento da ajuda e nem falou com Trump “ou com qualquer outra pessoa no governo” sobre o assunto. “Só soube do caso quando li nos jornais”, afirmou ele numa entrevista na semana passada. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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