Contrato com petrolífera da China amplia divisões no Iraque

Moradores de província queixam-se de que não se beneficiam de projeto

Timothy Williams, THE NEW YORK TIMES, PROVÍNCIA DE WASIT, IRAQUE, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

Quando, no ano passado, a maior empresa de petróleo da China assinou o primeiro contrato de desenvolvimento de um campo petrolífero depois da invasão do Iraque, o acordo foi visto como um teste da vontade do Iraque de abrir um setor até então vedado ao investimento estrangeiro.

Um ano depois, a China National Petroleum Corporacion encontrou petróleo no campo de Ahdab, Província de Wasit, a sudeste de Bagdá.

Mas, embora as relações entre a companhia e o governo iraquiano sejam muito cordiais, a presença de uma empresa estrangeira explorando enormes recursos nessa área rural e pobre do Iraque está causando uma crescente onda de descontentamento.

"Não recebemos nada diretamente da empresa e passamos por dificuldades", disse Mahmoud Abdul Ridha, que dirige o Conselho Provincial de Wasit, cujo orçamento foi reduzido à metade por Bagdá no ano passado por causa da queda dos preços no mercado internacional do petróleo.

"Há uma crise de desemprego. Necessitamos de estradas, escolas, usinas de tratamento de água. Tudo é necessário", declarou.

E isso resultou num movimento em defesa dos direitos da localidade - algo extraordinário num país onde as divisões políticas historicamente implicam risco de morte -, que nos últimos meses vem exigindo que pelo menos um dólar de cada barril produzido no campo de Ahdab seja usado para melhorar o acesso à água potável, serviços de saúde, escolas, estradas pavimentadas e outras necessidades da província, uma das mais pobres do país.

E essa onda de descontentamento já vem ultrapassando os limites políticos, com ações de sabotagem e intimidação dos trabalhadores chineses - o que tornou o campo de Ahdab um exemplo do quanto a cautela por parte das empresas estrangeiras é necessária para os que pretendem aderir a essa corrida para o lucro, representado pelas enormes reservas ainda não exploradas no Iraque.

Como o Iraque depende muitíssimo das receitas vindas do petróleo, se as empresas internacionais do setor hesitarem em investir no país, isso pode significar anos de contínua instabilidade política e econômica.

Todoss os ingressos do petróleo vão diretamente para o governo em Bagdá e são a base do orçamento nacional.

O governo iraquiano até agora rejeitou as demandas dos moradores de Wasit, mas agora eles começam a achar que alguma coisa nova é possível.

"Ninguém ousaria fazer essas exigências durante o regime de Saddam; se o fizesse com certeza seria executado", disse Ghassan Ali, agricultor de 43 anos que vive próximo do campo de petróleo. "Mas hoje somos um país democrático, de modo que temos o direito de exigir nossos direitos como qualquer outra província no Iraque."

A razão das queixas é que, além de contratar algumas centenas de moradores como operários e seguranças com salários inferiores a US$ 600 por mês, o campo de Ahdab - um projeto de aproximadamente US$ 3 bilhões, não está trazendo nenhum benefício para a província.

Alguns agricultores começaram a reagir, destruindo geradores e cortando cabos elétricos da companhia, enfurecidos porque acham que seus campos agrícolas estão sendo injustamente transferidos para a China National Petroleum. Outros estão indignados porque a empresa ofereceu poucas vagas de trabalho para eles.

Mas a empresa diz que, no momento, necessita de poucos trabalhadores porque ainda está na fase de exploração de um projeto que deve durar 23 anos. A produção de petróleo só deve começar dentro dois anos e meio.

Os cerca de cem chineses que trabalham no campo de Ahdab raramente deixam o seu espartano complexo habitacional com medo de sequestros, disse a empresa, apesar de o governo iraquiano ter instalado guardas de segurança na área.

A ira dos moradores está se transformando cada vez mais num movimento trabalhista muito claro, cujas preocupações são os direitos dos trabalhadores, a autoridade do governo local, problemas de poluição, práticas de contratação transparentes e responsabilidade pública, entre outras questões.

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