Controle cambial de Caracas amplia busca por voos

Venezuelanos podem comprar divisas no câmbio oficial, de 6,30 bolívares por dólares, e beneficiar-se da cotação paralela, de 41,95

Andrew Cawthorne e Girish Gupta, O Estado de S.Paulo - Reuters

25 Setembro 2013 | 02h09

CARACAS - Se você mora na Venezuela e quer viajar de avião para o exterior, terá de esperar na fila. As passagens se esgotam com vários meses de antecedência - não em razão de um renovado interesse dos venezuelanos por destinos exóticos, mas porque eles podem lucrar driblando os rigorosos controles do mercado cambial no país.

A adequação das companhias aéreas passou a integrar, ao lado da escassez, dos apagões e dos preços descontrolados, mais um símbolo dos enormes desafios econômicos com que se defronta o governo do presidente Nicolás Maduro na nação latino-americana sócia da Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (Opep).

"É como se a gente estivesse presa numa armadilha aqui", disse a agente de viagens Doris Gaal, que aconselhava um cliente a viajar de navio para uma ilha do Caribe porque os voos diários estão todos lotados. "E tudo isso por essa porcaria de dólares."

Depois de dez anos do controle de divisas implementado pelo líder socialista Hugo Chávez, em 2003, a disparidade entre o câmbio oficial do bolívar e o do mercado negro é maior do que nunca. Atualmente, o dólar é vendido no mercado ilegal por cerca de sete vezes o preço oficial, de 6,3.

Existem rigorosas restrições para a venda de dólares a 6,3 bolívares, mas os venezuelanos lucram com a quantidade de dólares que os turistas podem comprar para ir ao exterior. Com uma passagem de avião válida, eles podem comprar até US$ 3 mil no câmbio oficial.

Alguns nem sequer viajam e por isso muitos aviões voam com apenas a metade dos assentos ocupados. Os que compram passagens e não deixam o país limitam-se a mandar seus cartões de crédito a amigos no exterior. Eles passam o cartão e enviam o dinheiro de volta para a Venezuela.

"É por isso que muitas companhias aéreas voam com aviões quase vazios", disse Ricardo Cusanno, diretor de um departamento de turismo local, afirmando que o governo deveria cruzar as listas de voo com os nomes dos que solicitam moeda estrangeira para viajar, se quisesse descobrir os que não embarcam.

"Graças a essa mágica do câmbio, é possível ir de avião ao exterior gratuitamente", disse o economista Angel García Banchs. O lucro é proporcionado pela diferença entre os dois câmbios.

No exterior, os venezuelanos usam cartões de crédito para retirar o dinheiro - em vez de comprar mercadorias. Então, os dólares são levados de volta para a Venezuela e vendidos no mercado negro a cerca sete vezes o valor do câmbio oficial. A enorme margem de lucro cobre abundantemente o custo de voos e acomodações da viagem.

"Consegui comprar roupas novas e dar algum dinheiro a parentes mais próximos", disse, encantada, uma venezuelana que acabava de regressar da Europa.

"Foi realmente muito fácil. Num hotel, havia um sujeito com dez máquinas de cartão de crédito que passava o meu cartão para retirar US$ 1.000 por dia", contou um aposentado venezuelano, falando de sua visita a uma ilha do Caribe.

Como resultado do número elevado de assentos vazios, algumas companhias começaram a fazer mais overbooking do que de costume. Além de surpreender o setor, a procura por passagens tornou-se um dos temas preferidos das conversas e das piadas na rua.

O principal site satírico do país, El Chigüire Bipolar, publicou um artigo sobre uma nova rota aérea, de Caracas para Caracas.

Neste voo fictício, os passageiros podem comer um lanchinho quando deixam o espaço aéreo venezuelano, passar o cartão para conseguir "dólares ilícitos de maneira rápida e segura", e lucrar ainda mais comprando mercadorias no duty-free para vender na volta.

Os controles das divisas criados por Chávez exacerbaram alguns dos problemas que pretendiam corrigir: a inflação e a fuga de capitais.

Os importadores lutam com a falta de dólares para pagar produtos básicos - de papel higiênico a pão e vinho para as missas.

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