Controle de Cabul divide a Aliança do Norte

As divergências entre grupos rivais afegãos, alinhados na Aliança do Norte, aprofundaram-se nos últimos dias e abrem um grande ponto de interrogação sobre o futuro do Afeganistão na era pós-Taleban. Às portas de Cabul, centenas de rebeldes resistem às divisões de poder estabelecidas pela Aliança do Norte ou Frente Unida, nova autoridade da capital afegã. A rua em direção a Maidanshar, o centro no qual estão agrupados os rebeldes, está repleta de caminhonetes carregadas de mujahedins. Após os violentos combates desta quinta-feira, nesta sexta os bandos suspenderam as hostilidades, mas não ficou claro se foi para permitir a retirada dos civis ou porque negociações políticas estão em curso. "Os rebeldes não são talebans. Eu os conheço bem e estou em contato com eles. São pashtus, favoráveis à Loya Jirga (tradicional assembléia dos chefes tribais) e ao retorno do ex-rei Zaher Shah", disse o general Mohamed Ghul Ariobal, ex-comandante da Aliança do Norte, agora independente. Ariobal foi comandante da jihad contra a invasão soviética (1979-1989) e, em 1994, foi vice-ministro da Defesa do governo dos mujahedins presidido por Burhanuddin Rabbani, que se encontra em Cabul há uma semana, após a retirada dos talebans. Naquele momento, o ministro da Defesa era Ahmad Shah Massud, o popular líder tadjique assassinado pelos árabes de Osama bin Laden em 9 de setembro passado, dois dias antes dos atentados contra os EUA. De etnia pashtu, nos últimos anos Ariobal abandonou seus velhos companheiros e "conviveu" com os talebans, mas sem fazer parte do regime do mulá Mohammed Omar. Seu testemunho constitui um caso à parte, às vezes contraditório, mas que faz emergir as divergências na Aliança do Norte e provoca interrogações inquietantes sobre o futuro afegão. "Os homens que estão combatendo em Maidanshan?, comentou, ?estão a mando do mulá Mohamed, que esteve com os talebans, mas está a favor de convocar a Loya Jirga. Havia talebans dispostos a enfrentar um processo de paz, mas foram eliminados um a um." Entre os talebans a favor de um acordo de paz, Ariobal citou o mulá Rabbani e o mulá Burjan. Rabbani morreu de câncer, e Burjan faleceu na batalha por Cabul em 1996, mas, segundo Ariobal, teria sido assassinado pelos radicais do grupo do mulá Omar e Osama bin Laden. "Enviei uma mensagem ao mulá Mohamed, dizendo-lhe que devemos lutar pacificamente pela Loya Jirga e pelo retorno de Zaher Shah", afirmou Ariobal. Segundo o comandante, também na Jamiat-i-Islami do presidente Rabbani existem "moderados" que tentam participar de forma construtiva da conferência da próxima segunda-feira em Bonn, onde os principais líderes dos grupos étnicos afegãos tentarão chegar, sob o patrocínio da ONU, a um acordo que permita evitar uma guerra civil. Entre os moderados, o ex-comandante citou o ministro do Interior, Yunus Qanuni, que será o representante da Aliança do Norte na Alemanha. "Com Rabbani, entraram novamente os russos, e são eles que conduzem o jogo", acrescentou. Para Ariobal, a força que controla Cabul é composta por não mais de 3.000 a 4.000 homens bem treinados, todos guerrilheiros da Shura-i-Nizar, a milícia "privada" de Massud, que atualmente está sob as ordens de seu sucessor, o general Mohamed Fahim. "Fahim tem o poder, Rabbani é uma figura simbólica sem força militar." Os outros milhares de homens armados que caminham ameaçadores pelas ruas da capital são ex-talebans que desertaram, ex-militares que estavam com os talebans por oportunismo e jovens que se envolveram na milícia para ganhar algum dinheiro. Na opinião de Ariobal, a paz passa pela avaliação da dimensão de Rabbani, Fahim e a Haiat-i-Islami. Suas posições não são compartilhadas pelos hazaras do Hezb-i-Wahdat e os uzbeques do general Rashid Dostum, os outros componentes da Aliança. Disse que os afegãos lamentarão se a Jamiat ficar sozinha no poder em Cabul e for a única facção, além dos talebans no sul, com uma mínima organização política e militar. No Afeganistão, está em marcha um processo de realinhamento, no qual os pashtus (40% do país) e as minorias étnicas se estão alinhando sob as bandeiras do ex-rei e contra os "superpoderes" dos tadjiques de Rabbani. As perguntas dos líderes políticos giram em torno da conferência de Bonn e sobre qual será a alternativa para os grupos étnicos se não se chegar a um acordo que permita aos pashtus terem um papel em cena sem afetar os interesses de Rabbani. "A intervenção estrangeira poderia até ser aceita pela população, porque o que os afegãos querem hoje, acima de tudo, é a paz", disse Ariobal. Leia o especial

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