Convenção de Armas Biológicas cede a exigências dos EUA

Depois de tirarem o brasileiro José Maurício Bustani da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) e torná-la uma organização sem nenhum poder para controlar o uso de produtos químicos pelas forças armadas, os Estados Unidos desferem agora mais um golpe no controle de armamento no mundo.A Convenção de Armas Biológicas, que se reúne nesta semana em Genebra, deve adotar uma agenda de trabalho para os próximos três anos que não apenas é apoiada por Washington, mas que é simplesmente uma cópia de documentos preparados pela Casa Branca sobre armas biológicas.Teoricamente, o autor da proposta da agenda é o presidente das negociações da Convenção de Armas Biológicas, o húngaro Tibor Toth. Mas ele mesmo reconhece que os pontos da agenda foram tirados de uma declaração do governo de George W. Bush, feita em novembro de 2001, sobre armas biológicas.Toth explica que sua decisão de propor uma nova agenda está baseada na necessidade de engajar os Estados Unidos nas negociações. O problema, para muitos, é que o preço que está sendo pago é a renúncia da verificação de armas biológicas e a adoção de uma agenda preparada por Washington.Há um ano, os norte-americanos anunciaram que não aceitariam a criação de um mecanismo internacional que fiscalizasse a produção de armas biológicas. Segundo a Casa Branca, uma verificação internacional poderia prejudicar os segredos comerciais das empresas farmacêuticas.Diante da posição adotada pelos Estados Unidos, todo o esforço da nova agenda da Convenção passou a ter como objetivo incentivar os países para que adotem legislações nacionais que penalizem aqueles que sejam pegos produzindo esse tipo de armamento.Além de legislações, a agenda prevê um código de conduta para cientistas e o debate sobre medidas de segurança interna, para evitar que as populações estejam vulneráveis aos ataques biológicos.Ao transferir o debate para temas de menor importância, os Estados Unidos conseguem adiar indefinidamente as discussões sobre uma fiscalização internacional de armas.Para o pesquisador Malcolm Dando, da Universidade de Bradford, no Reino Unido, a tentativa dos norte-americanos de adiar uma inspeção internacional em suas empresas não tem relação com o temor de que segredos comerciais sejam roubados.Para ele, o temor é de que programas de desenvolvimento de armas biológicas sejam descobertos.Para responder ao novo golpe dos Estados Unidos, oito organizações não-governamentais e institutos de pesquisas de vários países lançaram hoje uma iniciativa para conduzir um monitoramento da produção de armas biológicas.Apesar de ter poderes limitados, o grupo promete publicar relatórios anuais sobre a situação das armas biológicas em cada país, o que poderá obrigar os governos a rever posições.

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