Ivor Prickett/NYT
Ivor Prickett/NYT

Convencidos de que são imunes, iraquianos abandonam proteções

Muitos deixam de usar máscaras acreditando na proteção divina ou que o Iraque atingiu a imunidade de rebanho

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 04h00

BAGDÁ - No sofisticado salão de narguilé de um novo restaurante em Bagdá, os clientes fumam tabaco com aroma de frutas com vistas do Rio Tigre. É uma noite de dia de semana, mas o Sky Lounge do restaurante Dawa está lotado de pessoas como se fosse 2019: sem máscaras, sem distanciamento, sem problema.

“Como iraquianos, não temos medo da morte. É um fator psicológico que pode fortalecer a imunidade de um ser humano”, disse Ali al-Khateeb, um empresário de 37 anos.

À medida que as taxas de infecção caíram, os iraquianos começaram a desrespeitar as precauções recomendadas, com muitos seguindo a crença duvidosa de que já adquiriram imunidade, uma ideia que foi endossada por algumas autoridades de saúde e líderes religiosos.

“Alcançamos um tipo de imunidade coletiva”, escreveu um oficial sênior de saúde, dr. Jasib al-Hijami, no mês passado no Facebook. Esta semana ele disse que mantinha o comentário.

A imunidade de rebanho oferece a um vírus menos hospedeiros potenciais e fornece alguma resistência a um surto. Geralmente, acredita-se que ocorra quando 70% ou mais da população foi infectada ou vacinada.

Os equívocos que os iraquianos acreditam e o desrespeito às medidas de segurança, mesmo com variantes mais contagiosas ocorrendo ao redor do mundo, podem levar a um grande surto, temem especialistas.

A taxa de infecção diária no Iraque tem caído constantemente, de mais de 3 mil novos casos em novembro para menos de 800 em janeiro. Esse declínio contribuiu para o que os especialistas chamam de falsa sensação de segurança.

Ali Mokdad, diretor de Iniciativas do Oriente Médio do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, disse que as taxas de infecção mais baixas podem ser explicadas em parte pelo inverno temperado do Iraque, no qual as janelas são mantidas abertas. A população jovem pode ser a razão para menos mortes e hospitalizações.

No auge da pandemia, no ano passado, o decrépito sistema de saúde do Iraque ficou sobrecarregado. O governo lutou para persuadir os iraquianos a usar máscaras, parar de apertar as mãos e beijar os rostos, a saudação comum entre pessoas do mesmo sexo no Iraque. Mas as autoridades iraquianas começaram a abrandar as restrições no último trimestre, conforme as taxas de infecção começaram a cair.

A campanha contra o coronavírus também foi prejudicada por funcionários de saúde locais que afirmam que o Iraque alcançou imunidade coletiva.

Mas especialistas em saúde pública duvidam disso. O dr. Mokdad diz que a melhor estimativa é que cerca de 20% da população foi infectada.

Nas mesquitas, alguns fiéis estão sendo informados de que não devem temer o vírus, desde que sigam a Deus. Até o ministro da Saúde do Iraque, dr. Hassan al-Tamimi, não endossou nem rejeitou a noção de imunidade coletiva. Ele creditou a queda nas taxas de mortalidade a uma maior capacidade de tratar a covid-19 e o declínio nos contágios à proteção divina. “O principal fator é a misericórdia de Deus”, disse o ministro.

O Iraque, com 40 milhões de habitantes, está mal preparado para uma segunda onda. Ele reservou 1,5 milhão de doses da vacina Pfizer e espera começar a administrá-la em março. Mas Riyadh Lafta, professor de epidemiologia da Universidade Al Mustansiriyah em Bagdá e outros especialistas disseram duvidar que um número suficiente de iraquianos concordaria em ser vacinado para que a campanha realmente tenha sucesso. / NYT

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