EVA HAMBACH / AFP
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Conversa ao telefone na Casa Branca

Impeachment marca uma mudança; democratas podem estar fazendo o certo, mas tiro ameaça sair pela culatra

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2019 | 05h00

O pessoal em Connecticut não está muito feliz com o que tem ouvido sobre o presidente Donald Trump. Jim Himes, deputado do quarto distrito do Estado desde 2008, disse que estava sentindo em seu eleitorado “um intenso sentimento de ultraje, quase uma suspeita de comportamento ilegal”. Ele passou a apoiar o impeachment em parte por que foi encorajado por seus eleitores. Mas, até recentemente, achava que o projeto não passaria. 

Longe dos subúrbios ricos de Connecticut, a ideia é bem menos popular. O chefe de campanha de Himes bateu à porta de centenas de democratas durante a eleição especial no nono distrito da Carolina do Norte. “Eles me mandaram baixar a bola do ódio a Trump”, disse. Dificilmente, algum dos 31 deputados democratas que representam distritos nos quais Trump saiu vitorioso na eleição de 2016 é favorável à ideia.

Nancy Pelosi, presidente da Câmara, compreende a preocupação deles. A maioria conquistada pelos democratas nas eleições de meio de mandato do ano passado lhes dá, em princípio, poder para pedir o impeachment de Trump. Mas o presidente só poderá ser considerado culpado se 20 ou mais senadores republicanos apoiarem os democratas. Isso é improvável, e a insistência nessa improbabilidade pode facilmente dar errado. 

Uma tentativa fracassada de desalojar Trump sob acusações que seriam tachadas de “fake news” poderia dar força aos que o apoiam e aumentar seu índice de aprovação. Quando a esquerda democrata falou em impeachment, Pelosi desestimulou a ideia. Mas a posição do partido mudou quase da noite para o dia. “Acho que veremos alguns desses democratas indecisos mudar de ideia”, previu Himes na segunda-feira. No dia seguinte, eles haviam mudado. Hoje, segundo o New York Times, apenas 15 deputados democratas ainda não embarcaram no impeachment. 

Se a maioria simples votar a favor, o presidente enfrentará o julgamento do Senado, em que só será considerado culpado se tiver contra si uma maioria de dois terços. Para isso, é preciso pelo menos 20 vira-casacas republicanos, o que torna a destituição pouco provável. Mas é possível que, apesar disso, a investida siga em frente, o que arrastaria os EUA para mares tempestuosos.

As seis comissões que Pelosi disse que operarão “sob o guarda-chuva do inquérito do impeachment” já estão realizando audiências sobre várias acusações contra Trump. Nos próximos dois meses, elas deverão determinar quais acusações reforçam a existência de crime ou contravenção grave que possam levar ao afastamento.

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Se o impeachment se destinar a funcionar politicamente, as comissões deverão apresentar não apenas transgressões, mas transgressões que vão além das expectativas do público. Consideremos o impeachment de Bill Clinton, em 1998. Apresentado como obstrução de Justiça, o processo girou em torno de prevaricação sexual. O público estava ciente de que Clinton, como Trump, não era novato no assunto. Mas não apoiou o impeachment. Na verdade, puniu quem foi a favor nas urnas.

O desrespeito de Trump fez subir o nível de exigências. Durante a campanha presidencial, foi amplamente divulgado que ele enganava seus empreiteiros e se vangloriava de pagar menos impostos. Seria bom se o público valorizasse essas informações antes de decidir seu voto. Se os inquéritos revelarem evidências de fraude fiscal ou trabalhista, seria mais aconselhável denunciar isso a promotores estaduais ou federal para adotarem medidas após Trump deixar o governo. 

Os eleitores também sabiam que Trump fala e age como racista e sexista. Mas isso não faz de sua retórica ofensiva, de suas políticas de imigração cruéis e de sua insistência em um muro na fronteira motivo de impeachment. O mesmo pode ser dito de seus ataques à imprensa, do assédio a oponentes e de sua admiração por ditadores. Nada disso surpreende, mas tampouco é motivo para impeachment. Era tudo evidente quando ele era candidato.

O que os partidários do impeachment precisam é de algo que contrarie não o que os americanos esperam de um homem, mas o que esperam de um presidente. Foi isso que derrubou Richard Nixon. Quando as audiências de Watergate deixaram claro que ele havia usado seu poder em benefício próprio, o público, de início cético, passou a defender a medida. 

No momento, o ponto mais forte contra Trump é o escândalo da Ucrânia. Impeachment, como muitas ações políticas, é no fundo um ato de persuasão. O drama ajuda. As audiências de Watergate atraíram o público em parte porque os investigadores avançavam sem saber onde o caso terminaria. Notícias sobre as gravações feitas no Salão Oval eram apresentadas em audiências televisionadas.

Pode não ser o caso das novas audiências. O ambiente da mídia mudou. Trump já admitiu publicamente grande parte daquilo do que é acusado. Dado que o Senado deve eximir Trump de culpa, uma estratégia poderia ser a de manter as coisas na Câmara por algum tempo. As lentas audiências sobre Watergate ajudaram a segurar a opinião pública. As poucas e apressadas audiências de 1998 fizeram com que os que queriam o impeachment de Clinton parecessem maus. E, quando chegar a hora, uma derrota no Senado pode forçar republicanos de Estados-chave a defender o que alguns eleitores consideraram indefensável. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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