Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Conversações sobre Síria

PARIS - Teve início na Suíça a conferência sobre a Síria denominada Genebra 2. O temor é que ela se encerre no momento da sua inauguração. Essa é a situação grotesca a que foi conduzida a diplomacia mundial no caso da Síria.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2014 | 02h12

Todas as "fadas" dessa diplomacia estavam inclinadas sobre o berço da conferência: em primeiro lugar os dois "padrinhos", Estados Unidos e Rússia, que imaginaram este encontro no ano passado, muito inquietos ao ver que a fogueira síria estava em vias de provocar uma guerra civil mundial entre os dois ramos do Islã, os sunitas, apoiados pela Arábia Saudita, e os xiitas (pelo Irã), para a felicidade dos sunitas jihadistas que formigam na Síria.

Mas uma outra "fada" também se inclinou sobre o mesmo berço da conferência de Genebra, a ONU. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que preside a conferência. E que levou seu papel a sério. Tão a sério que na segunda-feira quase fez fracassar a conferência antes mesmo de ela se iniciar.

E o que ele fez para conseguir tal resultado? Muito simples: anunciou que o Irã, líder do clã xiita e aliado indefectível de Bashar Assad, tinha sido convidado para o encontro. Declaração que provocou grande consternação em Genebra. O que ocorreu com ele? Por que a iniciativa de Ban foi tão incongruente, perigosa e condenada ao ridículo?

Simplesmente porque o objetivo das grandes potências, como fora decidido em junho 2012, primeiro encontro de Genebra, era exatamente isolar Assad. Ora, como o Irã é o intransigente aliado de Assad (e inimigo da Arábia Saudita sunita que apoia os rebeldes sírios, incluindo os jihadistas), a presença do Irã na conferência era algo absurdo ou suicida.

A iniciativa barroca do secretário-geral da ONU deixou todo mundo possesso. Primeira consequência: a Coalizão Nacional Síria, principal entidade de oposição a Assad, imediatamente ameaçou não participar das discussões. Segunda consequência: a iniciativa de Ban fez com que nos refinados círculos da diplomacia se ouvissem até algumas expressões não apropriadas. Um diplomata francês, que de repente esqueceu todo o refinamento linguístico de quatro, cinco séculos, exclamou em voz alta: "Ban Ki-moon fez uma besteira!" E então todos tentaram consertar a mancada.

O secretário-geral acabou cedendo: na segunda-feira, retirou o convite feito ao Irã. Vale observar de passagem que os americanos, apesar de também terem criticado Ban, são uns grandes hipócritas. Ao que parece, o secretário-geral só tomou a iniciativa depois de consultar Washington e receber o "sinal verde" dos americanos.

Apesar de tudo, podemos encontrar algumas circunstâncias atenuantes para o infeliz Ban? Sem dúvida ele se lembrou dos princípios que lhe foram ensinados quando fez seus estudos diplomáticos: numa negociação, o objetivo é colocar duas potências inimigas uma diante da outra, de modo que elas dialoguem e se aproximem. Se, por exemplo, para uma conferência são convidados somente os representantes de um mesmo campo e excluídos todos os delegados do campo contrário, ela não tem propósito.

Essa conferência está morta, mesmo aparentando estar viva. Ban ainda tem muito trabalho pela frente se quiser mostrar-se à altura da sua tarefa.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
Gilles Lapouge

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.