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Convidado inconveniente

Rafael Correa é um líder polivalente. Como os melhores caudilhos latino-americanos, tem discurso para qualquer varanda. Encanta a maioria pobre de seu Equador com um brado contra as elites e programas sociais custeados com a venda de petróleo aos inimigos gringos. Raramente perde oportunidade de alfinetar Washington, mesmo quando isso provoca prejuízo para seu país - como na semana passada, quando cancelou um acordo de trocas preferenciais com seu maior parceiro comercial.

Mac Margolis ,

30 de junho de 2013 | 02h09

No entanto, ultimamente, Correa também está se revelando um ambicioso jogador de pôquer diplomático, capaz de lançar intrigas de porte internacional, mesmo quando não sabe resolvê-las.

Considere o caso de Edward Snowden. Enquanto escrevo, o ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos EUA ainda se encontra na sala de trânsito do aeroporto internacional de Moscou, sem documento e sem destino certo.

O jovem foragido, que vazou detalhes de um programa de espionagem digital do governo americano, fugiu para Hong Kong e, depois, seguiu para Moscou. De lá, negociou asilo político no Equador, com o argumento de que sua notoriedade tornaria "improvável um julgamento isento ou tratamento humano" pela Justiça americana.

Foi um presente para Correa, que sentiu mais uma oportunidade para marcar pontos no jogo de grandes potências. No ano passado, o presidente equatoriano concedeu asilo a Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, que publicou comunicados sigilosos da diplomacia americana.

Acusado de abusar sexualmente de duas suecas, Assange foi para Londres, despistou a polícia britânica e pediu refúgio na embaixada equatoriana, dizendo-se perseguido pelo império americano.

Correa, o jogador, chamou Assange de herói da livre expressão, mas estava fazendo revolução com a boina alheia. Pois sabe que assim que pisar na rua, Assange será preso. Melhor para Correa, que ao estender um convite impossível de se cumprir ganha aplausos da turba antiamericana sem nunca precisar arcar com o ônus de conviver, de fato, com um convidado potencialmente inconveniente, como Assange.

Carga pesada. Agora, pesa repetir o gesto com Snowden, "um homem que tenta levar luz e transparência aos fatos que atingem as liberdades fundamentais de todos", disse seu chanceler, Ricardo Patiño. No entanto, a jogada agora é bem mais arriscada.

Não me refiro à ironia de Snowden, suposto defensor da liberdade, apostar na ajuda do líder bolivariano, que acaba de apertar ainda mais a mordaça contra a imprensa equatoriana - destaque para a cláusula 30 da nova lei de comunicação, que criminaliza a divulgação de informações "protegidas", sob pena de multa pesada e prisão imediata.

Entretanto, dar guarida a um delator do gabarito de Snowden, que teve acesso privilegiado ao aparato americano, é garantia de encrenca certa por ganhos duvidosos. Nas próximas semanas, o Congresso americano decidirá se estende ou não as preferências comerciais para os países andinos que reafirmem seu compromisso de combater o narcotráfico. O tratado é benéfico para Equador, que exporta livre de impostos flores, pescado e aspargos para os EUA, seu maior parceiro comercial. Parlamentares americanos, irritados com o flerte de Correa com Snowden, ameaçaram cancelar o acordo.

Correa atirou primeiro. Na quinta-feira, por decisão unilateral, mandou anular o tratado de trocas preferenciais e acusou Washington de "chantagem" comercial. De quebra, ofereceu enviar US$ 23 milhões aos americanos para assisti-los na "educação sobre direitos humanos".

Recuo. No entanto, entre cutucar o império e abrigar um foragido do gabarito de Snowden, há uma boa distância. Logo depois de mandar os gringos às favas, o líder bolivariano, candidato a substituir o finado Hugo Chávez no movimento antiamericanista regional, refugou. Correa teria se irritado com seu outro convidado problemático, Julian Assange, que teria tentado orquestrar a ida de Snowden.

Numa coletiva, em Quito, o jogador bolivariano flertou com o impasse. "A situação de Snowden é complexa e não sabemos como resolvê-la", afirmou Correa.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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