Convite de última hora ao Irã pode inviabilizar negociações de paz da Síria

Um convite inesperado de última hora da Organização das Nações Unidas ao Irã para que participe da conferência de paz sobre a Síria mergulhou as conversações na dúvida nesta segunda-feira, pois os Estados Unidos exigiram que o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, retire sua oferta e a oposição síria ameaça não participar do encontro.

LOUIS CHARBONNEAU E PARISA HAFEZI, Reuters

20 de janeiro de 2014 | 17h52

O Irã é o principal aliado externo do presidente sírio, Bashar al-Assad, e sua presença tem sido uma das questões mais controversas que pairam sobre as primeiras conversações em que devem participar tanto o governo da Síria como seus opositores.

O início das negociações está marcado para quarta-feira na Suíça. As expectativas de um avanço no sentido de encerrar quase três anos de conflito já eram poucas, mas diplomatas dizem que agora a conferência inteira está sob risco.

"Genebra vai acontecer? Essa é a questão que não podemos responder neste momento", afirmou um diplomata ocidental.

Depois da clamorosa resposta a seu convite, Ban estava "considerando urgentemente suas opções", disse seu porta-voz.

Para aumentar o clima sombrio, Assad disse que tentará a reeleição neste ano, rejeitando, na prática, qualquer diálogo para negociar sua saída do poder - principal exigência de seus inimigos.

Países ocidentais e a oposição síria vêm dizendo há muito tempo que o Irã tem de ser barrado da conferência, a menos que antes aceite um acordo alcançado em Genebra em 2012, o qual previa um governo de transição para a Síria, o que eles consideram como um passo para a remoção de Assad do poder.

Ban disse ter enviado o convite depois que o ministro de Relações Exteriores iraniano lhe garantiu que o Irã havia aceitado o acordo anterior. Mas o país afirmou não ter feito isso.

Essa situação coloca as nações ocidentais em rota de colisão com a ONU: "Se o Irã não aceita inteira e publicamente as conclusões de Genebra, o convite tem de ser retirado", disse a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Jen Psaki, em comunicado.

O principal grupo de oposição política síria no exílio, a Coalizão Nacional, que somente dois dias atrás concordou em participar da conferência conhecida como Genebra 2, disse que iria anunciar sua saída das conversações, a menos que Ban revogasse seu convite dentro de algumas horas.

"Estamos dando prazo até 19h (17h em Brasília) para que o convite seja retirado", disse Anas Abdah, membro do comitê político da Coalizão Nacional, em declaração à Reuters.

ACORDO DE 2012 É QUESTIONADO

Ban afirmou que o convite foi feito com base numa garantia do ministro de Relações Exteriores iraniano, Javad Zarif, de que o "Irã compreende que a base para as conversações é a plena implementação do comunicado de Genebra, em junho de 2012".

Mas o vice-chanceler do Irã, Hosein Amirabdollahian, e o principal consultor do líder supremo, Ali Khamenei, pareceram contradizê-lo.

"Se o convite de Ban Ki-moon se baseia na aceitação do acordo de Genebra 1 pelo Irã, então isso significa estabelecer precondições e o Irã não vai aceitar quaisquer precondições", afirmou o consultor Ali Akbar Velayati, segundo a agência oficial de notícias Irna.

O porta-voz de Ban, Martin Nesirky, disse que o secretário-geral está "profundamente desapontado" pelos comentários públicos do Irã e também com o fato de a oposição síria ter condicionado sua participação à retirada do convite ao Irã.

A Rússia, que há tempos defende a participação do Irã e critica a oposição síria e o Ocidente por serem contra a presença iraniana, disse não haver sentido uma conferência sem o país.

"Não garantir que todos que possam diretamente influenciar na situação estejam presentes seria, penso, um erro imperdoável", disse o ministro russo de Relações Exteriores, Sergei Lavrov.

A Arábia Saudita, inimigo regional do Irã e principal país financiador dos rebeldes, afirmou que não deveria ser permitido o comparecimento do Irã porque possui soldados na Síria ajudando Assad. No entanto, não chegou a dizer que não iria (caso o Irã vá) ou a pedir que a oposição não compareça.

Já parecia ser bastante improvável que a conferência resultasse em grandes avanços com vistas a encerrar a guerra que já matou pelo menos 130.000 pessoas, levou um quarto dos sírios a abandonar suas casas e tornou metade deles dependente de ajuda, que está fora do alcance para boa parte.

Países ocidentais e a oposição dizem que o acordo de 2012, que prevê um órgão governamental de transição, significa que Assad tem de deixar o poder e que nenhum acordo é possível se ele não sair. Mas essa demanda básica, sempre difícil de alcançar, é bem menos realista agora, depois de um ano em que a posição de Assad melhorou tanto no campo de batalha como na arena diplomática.

Em entrevista nesta segunda-feira à agência AFP, Assad declarou que provavelmente vai disputar a reeleição no fim do ano, deixando claro que sua remoção não está em discussão.

"Não vejo nenhum motivo para que eu não possa disputar", disse Assad. "Se há um desejo do público e da opinião pública em favor de minha candidatura, não vou hesitar nenhum segundo a disputar a eleição."

(Reportagem adicional de Michelle Nichols, na ONU; de Oliver Holmes, em Beirute; de Ali Abdelatti, no Cairo; de Lesley Wroughton, em Washington; de John Irish, em Paris; de Tim Heritage e Gabriella Baczynska, em Moscou)

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