Convivência é tensa em comunidades judaicas

Os focos de atritos concentram-se em distritos e cidades onde os judeus formam grupos mais fechados, como em Sarchelles, a 20 km de Paris

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

   Os relatos de incidentes antissemitas contrastam com o discurso de harmonia que líderes das comunidades judaica e muçulmana alimentam na França. Enquanto religiosos se esforçam para conter atos de hostilidade e demonstrar que a convivência pode ser pacífica, nas ruas a tensão é crescente.

Os focos de tensão estão localizados em distritos ou cidades nos quais judeus formam comunidades mais fechadas. Os confrontos multiplicam-se na capital, em regiões ao norte de Paris, e até mesmo no interior, como em Metz, perto da fronteira com a Alemanha. Um dos casos mais emblemáticos é Sarcelles, uma cidade de 59 mil habitantes situada a 20 quilômetros de Paris e apelidada de "Jerusalenzinha". Judeus formam a maior parte da classe média de um município em franco empobrecimento.

A tensão aumentou a partir de 2001, quando os desentendimentos foram levados à disputa política, com a formação do que ficou conhecido como "lista azul", só com judeus, em uma campanha eleitoral. A resposta foi a intensificação dos atritos. Em agosto de 2007, Kémi Seba, o ex-líder de um grupo acusado de antissemitismo, o Tribu Ka, anunciou na internet a intenção de "arrancar Sarcelles dos sionistas pelas urnas ou pelas armas".

"Sarcelles tornou-se uma cidade ultra-comunitária. Isso cria uma forma de desconfiança, depois de racismo", diz Mourad Boughanda, conselheira municipal. Em francês, o termo "communautaire" tem conotação negativa, pois é associado ao auto-isolamento de uma comunidade imigrante, fechada em seus próprios interesses.

O médico Marc Djeballi, presidente da comunidade judaica da cidade, não gosta da fama atribuída a Sarcelles, mas reconhece os problemas. "A cada dia, uma dezena de atos criminosos chegam à comunidade. Como você quer que vivamos tranquilos?"

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