Cooperação na Colômbia e no Haiti deve reaproximar EUA e Venezuela

O processo de reaproximação entre EUA e Venezuela, iniciado em abril, contempla a cooperação de ambos países em duas questões internacionais de interesse comum: o processo de paz na Colômbia e a situação no Haiti. A colaboração em temas que vão além das tensões bilaterais é uma tentativa de abrir caminho para a solução de questões relacionadas à crise política da Venezuela e aos laços entre Washington e Caracas.

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2015 | 02h06

O lado americano insiste na libertação de presos que considera políticos, na definição de uma data para as eleições legislativas e no seu acompanhamento por observadores eleitorais que tenham a credibilidade da comunidade internacional.

Os EUA também querem a normalização do funcionamento das representações diplomáticas de ambos os países, que estão sem embaixadores desde 2010 e sofrem ameaça de Caracas de redução drástica no número de diplomatas.

Entre outros pontos, a Venezuela quer a revogação do decreto do presidente Barack Obama que impôs sanções contra sete autoridades acusadas de violar direitos humanos e classificou o país como uma ameaça à segurança nacional americana.

O diálogo foi iniciado por iniciativa de Caracas na véspera da Cúpula das Américas, realizada no Panamá em 10 e 11 de abril. No fim de semana anterior ao histórico encontro entre os presidentes Barack Obama e Raúl Castro, o conselheiro do Departamento de Estado, Thomas Shannon, viajou para a Venezuela para se reunir com o presidente Nicolás Maduro.

O objetivo imediato era amenizar o tom da disputa aberta pelo decreto de Obama e evitar que o assunto ofuscasse o esperado protagonismo do reatamento entre Washington e Havana durante a cúpula. A missão foi bem-sucedida e os dois lados decidiram continuar o diálogo.

A mais recente rodada de negociações ocorreu no Haiti, onde Shannon se reuniu, no fim de semana, com a chanceler da Venezuela, Delcy Rodríguez, e com o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. O encontro com o parlamentar foi criticado pelo senador e pré-candidato republicano à presidência Marco Rubio, que o considerou impróprio, porque Cabello é investigado nos EUA por suspeita de corrupção e vínculos com o narcotráfico.

Segundo informações obtidas pelo Estado, houve dois encontros no Haiti. Um deles foi trilateral, com a participação do país anfitrião. Nele, representantes de Washington e Caracas manifestaram o apoio à realização de eleições neste ano e ao processo de recuperação da economia haitiana. EUA e Venezuela investem cada um entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões ao ano no Haiti e têm interesse em ver estabilidade política e fortalecimento econômico. As questões bilaterais foram discutidas num encontro separado.

O outro ponto de interesse comum é o processo de paz na Colômbia. No dia 21, o enviado especial dos EUA para as negociações, Bernie Aronson, viajou para Caracas e se reuniu com Maduro. A função de Aronson foi criada em fevereiro, em resposta a um pedido do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de que os EUA tenham participação mais ativa no processo que envolve as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Dez dias antes da visita de Aronson, Shannon tinha estado mais uma vez em Caracas para o seu segundo encontro com Maduro. Nenhum dos lados prevê quando uma nova rodada de negociações poderá ocorrer.

Mas, para os americanos, a continuidade das conversas depende de avanços nos pontos que consideram fundamentais. Preso em fevereiro de 2014, o líder oposicionista Leopoldo López está com a saúde debilitada em razão de uma greve de fome iniciada no fim de maio. Além dele, continuam atrás das grades os prefeitos de Caracas, Antonio Ledezma, e de San Cristóbal, Daniel Ceballos.

De acordo com a Constituição, as eleições legislativas devem ocorrer antes do fim do ano. Em votações recentes, Caracas rejeitou a oferta da OEA de enviar observadores eleitorais ao país. A entidade tem credibilidade e uma longa história nessa área. Só neste ano, representantes da OEA já acompanharam eleições em seis países da América Latina e Caribe.

No dia 8, Ernesto Samper, secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), publicou no Twitter que a organização estará na Venezuela nas eleições e disse esperar que organismos internacionais, como a OEA e a UE, "cumpram sua tarefa". Em resposta, o novo secretário-geral da OEA, Luis Almagro, disse estar pronto para enviar observadores eleitorais ao país, mas isso só será possível se houver concordância de Caracas.

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