Coordenação no Haiti gera atrito entre Brasil e EUA

A coordenação atabalhoada da ajuda internacional ao Haiti gerou atrito entre o Brasil e os Estados Unidos sobre o comando dessas operações. Hoje, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, telefonou para a secretária de Estado, Hillary Clinton, para queixar-se do controle americano sobre o aeroporto de Porto Príncipe. Os controladores teriam impedido a aterrissagem de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) carregadas de materiais urgentes para a população haitiana e as tropas do Brasil na Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah).

DENISE CHRISPIM MARIN, Agencia Estado

15 de janeiro de 2010 | 19h02

"Tudo isso pode ser visto como algo natural, porque há muitos voos de muitos países para chegar. Mas é importante ter a clareza de que nós (o Brasil) estamos sendo tratados com a prioridade adequada", defendeu Amorim à imprensa, durante visita ao Núcleo de Atendimento a Brasileiros no Exterior (NAB) do Itamaraty.

A queixa de Amorim deu-se horas depois de uma crítica do ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao comando "unilateral" dos EUA sobre o tráfego aéreo no Haiti. Essa situação também havia sido relatada a Amorim, hoje, pelo embaixador brasileiro em Porto Príncipe, Igor Kipman.

Segundo o chanceler, Hillary Clinton reiterou que o Brasil tem a liderança das operações humanitárias e de manutenção da ordem no país e que, portanto, sua ajuda terá a prioridade adequada. Segundo Amorim, Hillary mostrou-se especialmente preocupada em diluir e evitar "mal-entendidos" e comprometeu-se a tomar providências.

Ainda hoje, por instrução de Amorim, a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Luísa Viotti, buscou informações sobre o caráter da presença das forças americanas no Haiti. A delegação americana na ONU teria confirmado a Maria Luisa que essas tropas têm missão humanitária e não interferirão nos trabalhos da Minustah, comandada pelo Brasil. De acordo com o chanceler, o governo brasileiro deverá propor ao Conselho de Segurança da ONU a mudança do mandato da Minustah, para incluir atribuições e envolver mais tropas, apenas em uma etapa posterior.

Recursos

Com Hillary Clinton, Amorim retomou também as conversas sobre a organização de uma nova Conferência de Doadores para o Haiti, para angariar recursos emergenciais ao país. Essa conferência agrega mais de 20 países, entre os quais o Brasil, os Estados Unidos, a França e o Canadá, e organismos internacionais. Segundo o chanceler, Hillary reiterou o interesse do governo americano nesse encontro que, na opinião do governo brasileiro, deve ocorrer sob a égide das Nações Unidas. As gestões diplomáticas já começaram, mas nenhuma data foi ainda definida.

"O momento é de emergência. Cada um está fazendo o que pode. O importante é coordenar para evitar problemas no terreno. Às vezes, quando há muita gente querendo ajudar ao mesmo tempo, um esbarra no outro, e não dá certo", desabafou Amorim. "Então, temos de coordenar no terreno, com respeito claro à Minustah, que é a força oficial das Nações Unidas (no Haiti)".

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